A galinha dos ovos de ouro do Facebook

João Feres Jr.
Marcelo Alves

O papel das redes sociais na eleição que se aproxima é uma grande incógnita. Se até pouco tempo havia grande expectativa de candidatos, analistas e marqueteiros quanto à capacidade delas funcionarem como instrumentos de cooptação eleitoral, depois do escândalo da Cambridge Analytica essas expectativas se arrefeceram bastante. Isso é particularmente verdade porque foi o Facebook, a rede mais popular do Brasil, o pivô do escândalo. Em busca de recobrar sua credibilidade, a empresa de Mark Zuckerberg adotou uma série de controles e limitações de conteúdos e acesso para usuários e analistas que seriamente comprometeram o potencial comunicativo da rede.

Por outro lado, os candidatos a cargos proporcionais – deputados estaduais e federais – não têm muitas opções de canais de comunicação a não ser o próprio Facebook. Em período de campanha, candidatos podem se comunicar com seus potenciais eleitores por meio de propaganda direta – feita em eventos de campanha -, horário eleitoral gratuito, notícias na mídia e redes sociais. Contudo, os candidatos a cargos majoritários têm muito mais acesso a esses canais do que aqueles que concorrem aos cargos proporcionais. Esses últimos recebem parca parcela dos fundos partidários – o que limita sua capacidade de fazer propaganda direta -, aparecem muito pouco no horário eleitoral e são praticamente ignorados pela mídia. Em suma, no plano hipotético, as redes sociais ainda seriam para eles uma opção tentadora.

Um estudo da utilização de mídias sociais por candidatos à reeleição na Câmara dos Deputados no pleito de 2014, feito por Marcus Vinícius Chevitarese Alves¹, mostra uma forte correlação entre o uso do Twitter e o sucesso eleitoral e resultados inconclusivos quanto ao Facebook. Quatro anos depois como estariam se comportando os deputados federais nas redes sociais às portas de uma nova eleição?

Entre 1° e 17 de agosto de 2018, encontramos 433 fanpages de deputados no Facebook, das quais 420 fizeram publicações no período investigado, representando 81,87% do total de deputados federais. Ou seja, a imensa maioria dos deputados tem páginas no Facebook. Contudo, o uso que fazem da ferramenta está longe de ser homogêneo, como mostra a tabela abaixo:

Primeiramente, é preciso notar que os dois maiores fenômenos de popularidade na rede, Irmão Lázaro e Jair Bolsonaro, estão se candidatando a cargos majoritários em 2018, o primeiro ao senado pela Bahia e o segundo à Presidência da República. Mesmo retirando-os da lista, e considerando somente os deputados candidatos à reeleição, notamos uma concentração brutal de popularidade e atividade em um número muito reduzido de nomes.

Quando olhamos para os nomes dos partidos na lista dos campeões do Facebook notamos uma coincidência grande com a dinâmica da participação dos presidenciáveis nesta mesma rede. Os estudos do Manchetômetro² mostram que o debate eleitoral no Facebook é dominado pelas páginas de Lula e Bolsonaro. A forte presença de PSL e PT na lista dos deputados mostra que o sucesso na rede não se restringe às figuras dos presidenciáveis, mas se distribui também, ainda que de maneira limitada, a alguns candidatos desses partidos.

O PT tem estrutura partidária e tradição de envolvimento de sua militância com a internet. Bolsonaro, por seu turno, e não seu partido, é um fenômeno da internet, angariando boa parte de sua popularidade por meio das redes sociais. Nisso é auxiliado pelos sites e páginas dos grupos da Nova Direita, como o MBL, Movimento Brasil contra a Corrupção e o Vem pra Rua. Os deputados de maior sucesso de seu partido, inclusive seu filho, são todos ligados à agenda da segurança e defendem soluções de extrema direita para o tema. Ou seja, é possível que se beneficiem da subrede dos grupos da Nova Direita que militam em torno desse tema. Não é claro, contudo, de que maneira se organizam para obter tamanho sucesso no Facebook.

Chevitarese Alves mostra que, ainda que o sucesso eleitoral não esteja totalmente correlacionado ao Facebook – o que indica haver candidatos que são eleitos sem utilizar intensamente essa rede social -, há uma coincidência entre despesas de campanha, presença no Facebook e sucesso eleitoral. Em suma, mesmo que o Facebook não seja a galinha dos ovos de ouro eleitoral que muitos imaginavam, a performance dos candidatos neles é um bom preditor de sucesso eleitoral.

[1] Alves, M.V.C. 2018. “Duas arenas, uma tendência: personalização da campanha de 2014 para deputado federal nas ruas e nas mídias sociais.” Instituto de Estudo Sociais e Políticos, Universidade do estado do Rio de Janeiro.
[2] http://www.manchetometro.com.br/index.php/publicacoes/serie-m/2018/08/26/do-facebook-a-campanha-real-os-dilemas-da-eleicao-de-2018/.

O IESP nas Eleições publica às sextas-feiras análises sobre as Eleições Legislativas em uma parceria com o NEXO Jornal, tendo sido este texto publicado no dia 30/08: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2018/Facebook-a-galinha-dos-ovos-de-ouro-das-elei%C3%A7%C3%B5es-proporcionais

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