A implosão da centro-direita e o voto em Bolsonaro

Fernando Guarnieri¹ e Felipe Munhoz de Albuquerque²

As últimas pesquisas de intenção de voto para presidente do Ibope e do Datafolha indicam que no segundo turno teremos Fernando Haddad (PT) enfrentando Jair Bolsonaro (PSL). Em se concretizando, esse resultado vai contra vários prognósticos elaborados por cientistas e analistas políticos no começo da corrida eleitoral, incluindo o primeiro autor deste artigo. Para eles, a polarização entre PT e PSDB se repetiria.

O prognóstico tinha como base empírica o fato de que, entre 1994 e 2014, PT e PSDB juntos obtiveram, em média, 80% dos votos válidos, restando 20% para uma terceira via que tentava romper o duopólio sem sucesso. Interessante o fato de que nenhum partido conseguiu se consolidar nessa posição de terceira via. Em 1994, tentou o Prona. Em 1998, o PPS. Em 2002, o PSB. Em 2006, o PSOL. Em 2010, o PV e, em 2014, a aliança PSB/Rede. Portanto, seria de se imaginar que, apesar de estar em alta nas pesquisas, o PSL faria água como os anteriores, e que PT e PSDB, ou blocos em torno desses dois polos, mais uma vez, dominariam a cena.

Além dessa base empírica, o prognóstico tinha uma base teórica. Se imaginarmos que as preferências dos eleitores se distribuem de maneira homogênea em um contínuo ideológico, ou que preferências mais moderadas prevalecem, os partidos, para serem bem sucedidos, devem apelar para um eleitor de centro, um eleitor mais moderado ou, como diz o jargão, o eleitor mediano. Esse parecia ser o caso no Brasil. Com exceção de 1994, a terceira via sempre tinha posições intermediárias entre PT e PSDB e só não vencia por conta do efeito sanduíche — isto é, espremida no centro entre esses dois partidos, perdia votos à esquerda e à direita.

A possibilidade de o PSL passar para o segundo turno é algo inesperado, não antecipado pela teoria política e que exige explicação. Uma das hipóteses por ora levantada é a da polarização do eleitorado. Nesse cenário, as preferências eleitorais não se concentrariam mais no centro e nem estariam distribuídas de maneira homogênea, alocando-se nos extremos do contínuo ideológico e opondo petistas e antipetistas. Seria o “pluralismo polarizado” de Sartori — uma ameaça à democracia, dado o baixo compromisso dos polos com seus valores. Os partidos de centro não teriam vez nessas circunstâncias. A baixa intenção de votos no PSDB e MDB forneceria a base fatual para o diagnóstico.

Como as eleições presidenciais são casadas com as eleições para governador, podemos comparar a distribuição de preferências nesses diferentes pleitos para tentar jogar luz sobre a hipótese de polarização. Para “testá-la”, agregamos dados de intenção de voto nas eleições para governador nos estados por partido e posicionamos cada legenda no contínuo ideológico conforme Cesar Zucco e Thimoty Power, comparando a distribuição da votação para presidente e governadores. O resultado se encontra no gráfico abaixo.

A linha vermelha mostra a distribuição da intenção de voto para presidente e a linha azul, para governador. O contínuo no eixo horizontal vai de 0, à esquerda, até 10, à direita. A linha vertical pontilhada indica o centro. O eixo vertical é a quantidade de votos esperada conforme as pesquisas de intenção de voto mais recentes.

Vemos que as eleições para governador se encaixam na teoria do eleitor mediano descrita acima. Temos picos de intenção de voto na esquerda e na direita moderadas. A eleição presidencial difere das eleições estaduais por uma maior radicalização à direita. Isso é importante. Não há radicalização à esquerda. O voto na esquerda nas eleições presidenciais é tão moderado quanto nas eleições para governador, embora em um nível mais alto de intenção de votos. Já na direita temos uma depressão na região mais próxima ao centro, onde estão os partidos mais tradicionais e um pico no extremo onde se encontra o PSL. O eleitor abandonou a direita moderada e se aliou ao discurso antissistema da extrema direita.

O contraste entre as eleições presidenciais e para governador é mais evidente quando se compara a votação dos três maiores partidos brasileiros em tamanho de bancada e presença nacional. Enquanto, nos estados, PT, PSDB e MDB ocupam as três primeiras posições em intenção de voto, somando 44%, na presidencial esses partidos têm 33%, sendo que, destes, 22% são do PT.

O que essa análise sugere? Ela indica que não é a polarização que leva Bolsonaro para o segundo turno. Também não parece ser o antipetismo, já que qualquer candidatura à direita poderia assumir esse papel. O que parece ser a chave para entender os resultados deste primeiro turno é a implosão da intenção de votos na centro-direita tradicional, principalmente no PSDB — implosão essa que pode ser creditada a um sentimento antissistema. Seria algo semelhante ao que levou o movimento cinco estrelas do comediante Beppe Grillo ao poder na Itália. Um voto para punir as elites políticas tradicionais que se soma ao voto de extrema direita.

A composição da Câmara dos Deputados não deve ficar distante das preferências reveladas pela agregação dos votos para governador. Se isso for verdade, os dados também sugerem que o PT teria mais facilidade de formar uma coalizão majoritária nos mesmos moldes das que fez quando ocupou a Presidência. O PSL tem uma posição bem mais distante da do provável legislador mediano e teria que barganhar muito para conseguir fazer as mudanças drásticas que anuncia e que seu eleitor espera.

[1] Fernando Guarnieri é cientista político, professor e pesquisador do Iesp-Uerj.
[2] Felipe Munhoz de Albuquerque é doutorando em ciência política no Iesp-Uerj.

O IESP nas Eleições publica às sextas-feiras análises sobre as Eleições Legislativas em uma parceria com o NEXO Jornal, tendo sido este texto publicado no dia 04/10: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2018/A-implos%C3%A3o-da-centro-direita-e-o-voto-em-Bolsonaro

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