Ainda sobre a implosão da centro-direita tradicional

Carolina de Paula*
Marcelo Alves**

Em coluna anterior, Fernando Guarnieri e Felipe Munhoz de Albuquerque apresentaram o forte encolhimento da intenção de votos dos dois maiores partidos da centro-direita tradicional, PSDB e MDB, na eleição presidencial. Já com o resultado dos demais pleitos em mãos, chamamos atenção para mais um revés desse campo ideológico: a expressiva perda do tamanho da bancada na Câmara dos Deputados. Os dados são cristalinos: o MDB e o PSDB são os maiores perdedores nesse pleito. Em 2014, o partido do atual presidente da República obteve a segunda maior bancada da Casa, com 66 cadeiras; agora, conquistou 34 lugares. Já o PSDB, que em 2014 saiu das urnas com a terceira maior bancada — 54 cadeiras —, terá, a partir do ano que vem (desconsiderando possíveis migrações), uma modesta bancada: serão 29 lugares.

Se, por um lado, vimos implodir o número de deputados federais representantes desse campo, nasceu em 2018 uma nova força na Câmara dos Deputados, o PSL. O partido de Jair Bolsonaro fez sua reestreia nas urnas, agora capitaneado pelo presidenciável, e conquistou 52 assentos. Até o momento — ainda teremos movimentações —, a legenda só está atrás do PT, que obteve o melhor desempenho e garantiu 56 lugares.

Os analistas ainda estão buscando explicações para o sucesso do PSL. A motivação do voto para deputado federal é uma temática bem mais complexa se comparada àquela que move a racionalidade do voto para o Executivo federal. O que se sabe é que existe uma diversidade de explicações que ultrapassam a variável econômica. É um voto que tende a ser decidido na véspera do pleito. Sem sombra de dúvida, parte desse sucesso do PSL decorreu do chamado efeito coattail — ou efeito carona — em que a votação do candidato a presidente/governador impacta a disputa para o Legislativo.

Além de explicações centradas em critérios políticos e sociais para o sucesso do PSL e o encolhimento da bancada do PSDB e MDB na Câmara dos Deputados, podemos olhar para os aspectos comunicacionais. Dados de uma pesquisa que fizemos no Iesp nas Eleições sobre o uso do Facebook pelos eleitos para a nova legislatura apontam para a incapacidade da centro-direita tradicional de circular suas ideias na plataforma, mesmo com o investimento pago.

Identificamos 497 fanpages de deputados eleitos no Facebook, representando 96,88% do total de deputados federais. Dessas páginas, 494 fizeram publicações no período investigado. Entre 15 de agosto e 7 de outubro de 2018, recolhemos 89.773 postagens. Dois achados merecem atenção. O primeiro é sobre o volume de compartilhamento do conteúdo, conforme ilustrado no gráfico:

O PSL lidera disparado a circulação de conteúdo nessa rede social, seguido pelo PT. Vemos também que os partidos da centro-direita tradicional estão na lanterna: o volume de compartilhamentos do MDB, por exemplo, quase se assemelha ao pequeno e inexpressivo PV. Outro achado da pesquisa, ilustrado no gráfico abaixo, diz respeito aos nomes que mais se destacam na rede social:

Por total de seguidores das fanpages, novamente o PSL se destaca no conjunto. O PSDB só aparece devido ao nome de Aécio Neves, que conta com uma fanpage herdada da sua disputa presidencial em 2014. Mais uma vez, o MDB tem um desempenho pífio.

Não estamos sugerindo aqui que exista uma predição dos resultados derivada do desempenho partidário no Facebook. Elementos da conjuntura como a forte participação dos deputados federais do MDB e do PSDB no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e em votações importantes na Câmara dos Deputados, como a reforma trabalhista, também precisarão entrar na conta. Isso sem falar na caixa preta do aplicativo WhatsApp — largamente utilizado na campanha para o Legislativo e de difícil acesso para mensuração de impacto no voto —, que ainda precisará ser aberta.

*Carolina de Paula é doutora em ciência política, coordenadora do Iesp nas Eleições e sócia-diretora da Vértice Inteligência.
**Marcelo Alves é doutorando em comunicação pela UFF e sócio-diretor da Vértice Inteligência.

O IESP nas Eleições publica às quintas-feiras análises sobre as Eleições Legislativas em uma parceria com o NEXO Jornal, tendo sido este texto publicado no dia 18/10: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2018/Ainda-sobre-a-implos%C3%A3o-da-centro-direita-tradicional

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