Boletim do Whatsapp – Nº 1

Victor Piaia – victor.piaia@gmail.com
Doutorando em Sociologia (IESP-UERJ)

Não é de hoje que se diz que as eleições de 2018 terão um grande peso das redes sociais. Tal ideia não é óbvia, pois confronta o principal modelo de formação de preferências: centrado no alcance e na capacidade da TV em agendar os debates que se desenvolvem em outras camadas comunicativas, como as conversas face a face e as próprias interações virtuais. O grande dinamismo das redes, no entanto, apontava para a reconfiguração da sua influência no cenário eleitoral. Resta-nos saber o quanto.

A distribuição desigual de horário gratuito de propaganda eleitoral (HGPE) entre os candidatos, concentrado em Alckmin (44,8%), Haddad (19,1%) e Meirelles (15,6), dramatizou a importância de outras formas de comunicação com o eleitorado. Destaca-se, nesse caso, o candidato Jair Bolsonaro (PSL), que, com apenas 8 segundos de TV e 11 inserções durante a programação ao longo de toda campanha, consegue se manter como firme candidato ao segundo turno, em constante crescimento nas pesquisas.

Não se trata de apressadamente atribuir seu crescimento à sua atuação nas redes sociais. Há uma série de fatores contextuais e estruturais que atuam nesse processo e é difícil mensurar o peso de cada um no calor da disputa. No entanto, as redes têm sido muito atuantes e merecem um olhar cuidadoso. Como o campo dos estudos sobre a comunicação digital já possui grande conhecimento e dados sobre a circulação de conteúdos em redes como Twitter e Facebook, resolvemos olhar para um espaço mais descentralizado, espinhoso, mas de grande alcance: o Whatsapp.

Para isso, foi criado um número chamado “Política no Zap” e disseminado um pedido para mais de 500 contatos, solicitando que encaminhassem conteúdos políticos que circularam em seus grupos de Whatsapp. Recebeu, encaminhou. Todo tipo de material, memes, vídeos, áudios, imagens e textos. O importante é que tenham circulado em seus grupos.

Nesse sentido, o Política no Zap busca ser um repositório de conteúdos políticos que circulam no Whatsapp do indivíduo comum. Não sobre a produção intencional de partidos ou movimentos, mas sobre o repasse cotidianos de eleitores com diferentes graus de engajamento político em seus grupos de proximidade, como família, trabalho e amigos. A arquitetura do aplicativo já nos traz um grande desafio, pois não permite que mensuremos o impacto ou o grau de circulação de determinados conteúdos. No entanto, se não podemos ter uma visão sobre o todo, podemos, ao menos, ampliar nossa visão sobre as partes. Aí vão os destaques da primeira rodada de colaborações:

No caótico mosaico de informações, opiniões, memes e vídeos de denúncia, o destaque da coleta entre os dias 10 e 18 de setembro girou em torno da confiabilidade e voto no eleitorado de Jair Bolsonaro. É importante pontuar isso: há um fluxo contínuo, quase inercial, de conteúdos críticos ao lado opositor e em exaltação aos candidatos. Nesse meio, alguns conteúdos se destacam por propor pautas novas movimentando o debate num jogo entre reação e propostas em relação ao conteúdo circulado nas diferentes camadas comunicativas. Isso não significa dizer que esses são os conteúdos mais compartilhados (até porque não seria possível a verificação pelo Whatsapp), mas os que movimentam o debate para além da dinâmica de compartilhamento contínua/automática.

Voltando ao ponto, no contexto do lançamento da candidatura de Fernando Haddad (PT) e de declarações da família Bolsonaro e de influenciadores da direita brasileira, o debate sobre a mensuração e confiabilidade dos votos e das pesquisas eleitorais voltou ao centro das discussões virtuais. Três foram os principais movimentos nesse sentido:

  1.  A partir do dia 11 de setembro, começaram a aparecer vídeos, textos e áudios acusando um correligionário do PSDB de tentar enganar o eleitorado de Jair Bolsonaro ao propor a inclusão do número do candidato ao lado da assinatura do livro de comparecimento eleitoral. Diversos conteúdos apontavam para o perigo de anulação dos votos em caso da inclusão da numeração e buscavam deter a desinformação espalhada pelas redes sociais.
  2. Um segundo movimento teve início também no dia 11 de setembro com a repercussão de um tweet do apresentador Danilo Gentili sobre uma suposta proibição da realização de uma enquete sobre intenções de voto para presidente. O caso, somado ao rápido crescimento de Fernando Haddad, mobilizou diversos conteúdos indicando suposta má-fé dos institutos de pesquisa e criticando as metodologias a partir de dois argumentos principais: i) a incompatibilidade entre os resultados nacionais e os ambientes de proximidade; ii) a amostragem em torno de dois mil entrevistados. Ainda nesse movimento, começaram a circular: i) resultados de pesquisas não registradas – que apontavam vantagem de Bolsonaro – e ii) links para pesquisas online. Esse movimento se intensificou junto com as pesquisas CNT/MDA, do dia 17/09 e IBOPE, divulgada no dia 18/09.
  3. Na esteira dos questionamentos sobre as pesquisas eleitorais e sobre o crescimento de Fernando Haddad, voltam a aparecer boatos sobre a confiabilidade da urna eletrônica em garantir a lisura do processo eleitoral. Essa pauta há muito tempo povoa o discurso do eleitorado e do próprio candidato Jair Bolsonaro, mas foi jogada mais uma vez ao debate a partir de declarações do candidato em uma transmissão ao vivo no Facebook (16/09) e de um tweet de seu filho, Carlos Bolsonaro, na manhã de 18/09. Essas denúncias são alimentadas por textos de sites duvidosos que disseminam o boato de que o TSE teria fornecido dados de segurança da urna para uma empresa venezuelana. O tema é incentivado pela circulação de vídeos de influenciadores digitais, por uma entrevista do ex-delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz e por considerações do professor da UNICAMP Diego Aranha, sobre a suposta violabilidade da urna eleitoral. Em reação às “denúncias”, iniciou-se um movimento solicitando acompanhamento militar na apuração dos votos.

Nesse sentido, os conteúdos em circulação no Whatsapp parecem convergir em uma imagem que conjuga desconfiança nas instituições e valorização da importância do voto. A suspeição de Jair Bolsonaro sobre o processo eleitoral e o compartilhamento de seu filho, Carlos, de uma notícia falsa¹ sobre uma suposta interferência venezuelana na segurança da urna eleitoral contribuem de maneira decisiva para a consolidação dessa perspectiva. As declarações, no entanto, não são somente replicadas, mas abastecidas de diversos outros conteúdos e mídias, de diferentes fontes, inundando o ambiente informacional das interações pelas redes sociais, em especial, pelo Whatsapp.

[1] https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2018/09/18/verificamos-tse-codigos-urnas-venezuela/

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