Boletim do Whatsapp – Nº 2

Coordenação de voto proporcional; Ofensiva à cantora Anitta; Antecipação de enquadramentos: Urna, Imprensa e #Elenão

Victor Piaia¹

O segundo boletim do Whatsapp se ocupa de questões que circularam pelos grupos de 36 colaboradores entre os dias 19 e 28 de setembro. O critério segue o modelo do primeiro boletim, com a análise sobre conteúdos que fogem à dinâmica tradicional de exaltação ou crítica a um determinado candidato. Essa tem sido observada como a principal dinâmica de circulação de conteúdos nesse período eleitoral: por um lado, muito conteúdo – em diferentes formatos – reforçando mensagens e símbolos a partir da repetição de temas e enquadramentos e, por outro, algumas poucas mensagens que trazem novos temas, alvos e perspectivas sobre o debate eleitoral.

Outro ponto que chama atenção é a presença maciça de conteúdos originários da campanha “não oficial”². Esse fenômeno é particularmente expressivo nos conteúdos relacionados à campanha do candidato Jair Bolsonaro, que conta com pouco tempo de TV, apostando (até agora com sucesso) nas redes sociais como forma de pautar temas, agendar debates e enquadrar perspectivas em relação ao seu eleitorado. Vale ressaltar, também, que os conteúdos relacionados à campanha de Bolsonaro são a maior parte dos encaminhamentos até agora.

Antes de ir aos temas que se destacaram nesses últimos dias, reforçamos o pedido de colaboração para as próximas edições. O procedimento é simples: basta salvar o número (21) 97598-1590 em seu celular e encaminhar conteúdos políticos que circularem por seus grupos de proximidade. Recebeu, encaminhou. Todo tipo de material vale: memes, vídeos, áudios, imagens e textos. O importante é que tenham circulado em seus grupos! Aí vão os temas de destaque:

1) Coordenação de voto proporcional e majoritário
Um primeiro movimento que foi identificado nos últimos dias foi um esforço mais coordenado em buscar votos para candidatos apoiados pelo candidato Jair Bolsonaro. Uma lista chamada “Time Bolsonaro Brasil” organizou candidatos para todos os cargos em disputa nessas eleições em todos os estados do Brasil. Essa é uma dimensão importante, pois permite pensar tanto na capacidade de Bolsonaro de transmitir seus votos, quanto a capacidade de organização dessas redes. Até agora o resultado indica uma baixa transferência. Comparando a indicação e as posições em pesquisas de intenção de voto para o Senado e Governo, apenas três senadores e dois governadores aparecem em posições competitivas. Restaria ver o desempenho de deputados federais e estaduais, mas a ausência de pesquisas faz com que essa análise só possa ser feita após a apuração.

2) Ofensiva contra Anitta
No dia 27 de setembro, às 14h, chegou ao Política no Zap uma mensagem convocando os eleitores de Bolsonaro a negativarem vídeos publicitários em que a cantora Anitta é a garota propaganda. A lista continha 45 links de vídeos no Youtube com publicidade de 13 empresas diferentes. Dois links estavam corrompidos. Foi feito o acompanhamento da evolução da aprovação desses 43 vídeos em três momentos do dia: 14h, 17h e 20h.

Desde o momento de início do monitoramento, nota-se o crescimento de quase quatro vezes o número de “dislikes”. Trata-se de uma ação coordenada a partir de rápida mobilização virtual. Não é uma ação exclusiva do Whatsapp, já que foi possível encontrar replicações desse chamado no Twitter e no Facebook. De qualquer forma, parece ser um caso interessante para nos trazer alguma dimensão da capacidade de mobilização virtual dessas redes de proximidade, pois em nenhum momento esse chamado figurou entre os trending topics do Twitter ou foi impulsionado por algum influenciador digital ou figura pública (durante o período da coleta).

3) Antecipação de enquadramentos: Urnas, Imprensa e #Elenão
Um terceiro movimento que se destacou foi uma estratégia de antecipação de enquadramentos, ou seja, mensagens que antecipavam eventos futuros trazendo algum tipo de interpretação ou negação sobre eles. Nos últimos dias, em especial, isso apareceu muito forte a partir da denúncia da candidata a deputada federal do PSL Joice Hasselman sobre um suposto pagamento de 600 milhões para veículos da imprensa difamarem o candidato Jair Bolsonaro. Mesmo não apresentando nenhuma prova disso, foram vários os conteúdos que replicaram essa mensagem, seja reproduzindo o vídeo original, seja em novas plataformas e formatos.

No dia 28 de setembro, começou a circular outro tipo de conteúdo que opera de forma semelhante: prints de uma suposta conversa de Whatsapp de grupos ditos “antifascistas” planejando atacar as manifestações do #Elenão que aconteceram no sábado (29/09) usando camisas da campanha de Jair Bolsonaro. Diferente da “previsão” de Hasselman, as manifestações do #Elenão ocorreram sem violência por todo o Brasil.

Os dois conteúdos remetem a um expediente que já tinha sido mapeado no primeiro Boletim do Whatsapp, a partir da boataria em torno de uma possível fraude das urnas eletrônicas. Eles se diferenciam em temporalidade, objetos e previsibilidade, mas convergem no sentido de preparar – a partir de informações exclusivas – quadros interpretativos para eventos futuros. Essa estratégia parece ter bastante eficácia no período eleitoral recente, principalmente no que toca a disputa entre as narrativas das redes sociais e da imprensa tradicional. O impacto efetivo que terão é algo a ser observado.

[1] Doutorando em Sociologia pelo Iesp-Uerj. Email: piaia.victor@gmail.com
[2] ALVES, Marcelo Santos. Campanha não oficial? A Rede Antipetista na eleição de 2014. REVISTA FRONTEIRAS (ONLINE), v. 19, p. 102-119, 2017.

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