Boletim do Whatsapp – Nº 3

Fiscais do Jair; O PT no Whatsapp; Disputa religiosa sobre Bolsonaro

Victor Piaia¹

O crescimento expressivo do candidato Jair Bolsonaro na última semana da corrida eleitoral atraiu grande atenção para a importância do Whatsapp na campanha. Diversas reportagens mergulharam em grupos de apoio ao candidato identificando a intensa circulação de conteúdos e a organização de diversas ações coordenadas de ataque aos seus opositores.

Soma-se a isso os resultados de uma pesquisa do Datafolha que mostrou que 61% dos eleitores de Bolsonaro se informam pelo Whatsapp e 40% tem o hábito de compartilhar notícias políticas no aplicativo. Esses números se tornam mais relevantes em comparação ao eleitorado seu principal adversário, Fernando Haddad, em que apenas 38% se informa pelo Whatsapp e 22% compartilha conteúdos. Esse movimento já vinha sendo captado nos dois primeiros boletins do Whatsapp, nos quais a presença de conteúdos pró-Bolsonaro era muito superior à dos outros candidatos.

Um dos conteúdos recebidos na última coleta nos dá alguma noção sobre essa grande rede subterrânea de comunicação política: um vídeo em que Bolsonaro mostra um celular recebendo inúmeras notificações de mais de 1500 grupos. A movimentação é tão intensa que é impossível clicar em algum grupo.

Essa dinâmica também pode ser observada nos grupos dedicados ao candidato no aplicativo Telegram. Enquanto o Whatsapp comporta grupos de até 256 integrantes, o Telegram joga esse limite para até 30 mil membros. Em uma rápida busca, foi possível encontrar grupos com mais de 2800 membros dedicados ao candidato.

Para esse Boletim do Whatsapp, contamos com 53 colaboradores que nos enviaram mais de 500 conteúdos entre os dias 29 de setembro e 06 de outubro.

Reforço sobre fraude das urnas: Fiscais do Jair

Presente desde o início da campanha, os conteúdos que denunciam fraudes nas urnas eletrônicas se intensificaram na reta final, em especial entre sexta (05/10) e sábado (06/10). Um dos vídeos compartilhados argumenta que as urnas seriam mais facilmente manipuláveis no segundo turno, por conta da diminuição do número de candidatos, de modo que seria importante a vitória de Jair Bolsonaro ainda no primeiro turno.

Há uma série de outros textos reforçando essa perspectiva de vários pontos de vista diferentes. De novidade, vale ressaltar a iniciativa “Fiscais do Jair”, um aplicativo lançado pelo PSL que lê o QR Code dos Boletins de Urna (BU), impressos ao final da seção eleitoral. O site de divulgação pede a colaboração de fiscais voluntários, previamente cadastrados, que farão a captura dos resultados do BU a serem divulgados no aplicativo “Totalização paralela 2018”.

A iniciativa tem uma menção à Jair Bolsonaro no nome, tem seu coordenador de campanha, Gustavo Bebianno como garoto propaganda e o endereço e logo do PSL nos créditos da página. Ainda assim, no texto de apresentação, consta que é uma iniciativa independente e que o PSL apenas apoia. Seguindo a tendência de contestação sobre a confiabilidade da urna eletrônica durante a campanha, o movimento deverá funcionar como a base “legítima” para a contestação do resultado eleitoral.

Entrada do PT no Whatsapp

Outro movimento importante dessa última coleta foi a entrada mais consistente de conteúdos pró-PT no Whatsapp. A maior parte deles com ataques ao candidato Jair Bolsonaro, ressaltando inconsistências em sua trajetória e destacando promessas que ele ou sua equipe fizeram ao longo da campanha. Algo interessante de se destacar é que, diferente dos conteúdos em apoio à Jair Bolsonaro, que têm, em sua maioria, uma estética semelhante a produções “autorais” da militância, os conteúdos de ataque são produtos com acabamento mais profissional. Isso não significa dizer que são menos verdadeiros ou compartilhados, mas que mobilizam uma estratégia diferente para a viralização nas conversas de Whatsapp.

Disputa religiosa sobre Bolsonaro

Uma das grandes novidades da última semana de campanha foi a formalização do apoio da Igreja Universal do Reino de Deus à candidatura de Jair Bolsonaro. Mesmo antes desse apoio, já circulavam diversos conteúdos relacionados à religião, buscando construir uma narrativa em torno do candidato. Por um lado, trechos da bíblia, supostas cartas psicografadas, mensagens de líderes espirituais e montagens endossavam o sentido missionário de Bolsonaro e as previsões bíblicas sobre sua chegada ao poder. Por outro, reflexões de teólogos, interpretações de mensagens do Papa Francisco e cartas de grupos religiosos, argumentando para os ideais anticristãos que permeiam suas declarações sobre torturas, minorias e armas, por exemplo. Não é possível afirmar que essa circulação tem maior influência do que conselhos e indicações de líderes religiosos de proximidade, mas certamente elas ajudam a povoar o ambiente comunicativo cotidiano, reforçando narrativas e perspectivas sobre o embate eleitoral.

Colabore também! Basta salvar o número (21) 97598-1590 nos seus contatos e encaminhar conteúdos políticos que circularam por seus grupos de Whatsapp. Vale meme, texto, vídeo, link, áudio ou imagem. Basta que tenha circulado por seus grupos!

[1] Doutorando em Sociologia pelo Iesp-Uerj. Email: piaia.victor@gmail.com

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