Fact-checking a serviço da grande imprensa

João Feres Júnior

No dia 21 de maio, Cristina Tardáguila, diretora da Agência Lupa, autodenominada “a primeira agência de fact-checking do Brasil”, publicou artigo no site da revista Piauí denunciando um suposto ataque que as agências de fact-checking estão sofrendo nas redes sociais. O site da revista Piaui está dentro do portal UOL, em uma subdivisão intitulada “Folha de S. Paulo”. O artigo de Tardáguila foi publicado simultaneamente na revista Época.

Trata-se de um texto muito interessante se conseguirmos observar suas várias camadas de sentido. Comecemos pela declaração de Tardáguila, logo no primeiro parágrafo, de que após terem anunciado no último dia 10 de maio que a Lupa havia sido contratada pelo Facebook para fazer verificação das notícias daquela rede social, “o ambiente virtual em torno da Lupa e de alguns de meus funcionários ficou conturbado e perigoso”.

A diretora da Lupa emenda no segundo parágrafo uma defesa institucional de sua agência, brandindo credenciais. São elas: ter sido defendida pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e pela diretoria da International Fact-Checking Network (IFCN) perante a “onda” de ataques virtuais, e ser auditada anualmente pelo Poynter Institute dos Estados Unidos.

Tardáguila escreve somente mais um parágrafo para informar que “solicitou” à Fundação Getúlio Vargas uma análise das redes sociais acerca do ocorrido. Logo em seguida, replica um artigo de Marco Aurelio Ruediger e Amaro Grassi, da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV com os resultados da análise. Isto é, o artigo da diretora da Lupa resume-se a uma introdução a outro artigo, algo assim como uma matriosca. Vejamos o que contém esse segundo artigo.

Prefiro reproduzir abaixo seu primeiro parágrafo:

“A onda de ataques às agências de fact-checking brasileiras, em reação ao anúncio da parceria com o Facebook no último dia 10, precipitou um cenário que deverá marcar as eleições: a lógica de “guerrilha” virtual, pautada por pequenas ações concertadas no ambiente digital, mas com elevado potencial de danos reais ao debate público e ao processo político-eleitoral”.

O texto dos autores da FGV continua com a seguinte passagem:

“Confrontados com uma iniciativa necessária, orientada pelo propósito de qualificação do debate público, grupos supostamente ameaçados desatam ataques marcados pela ação de trolls, perseguições pessoais, “fake news” e ações de robôs – um arsenal de desinformação pronto para minar a credibilidade de qualquer ator que seja identificado como inimigo político”.

É interessante notar que a despeito das afirmações bastante peremptórias feitas nos parágrafos introdutórios do artigo, as evidências oferecidas são bastante pálidas. Ficamos sabendo que das 45 mil menções acerca do anúncio da parceria entre Facebook e as agências, “46% dos perfis mantiveram tom de oposição à iniciativa e aos parceiros, com discurso pautado por acusações de falta de isenção, críticas pessoais e denúncias de ‘censura’ à internet”, que 33% dos perfis que participaram da contenda apoiaram o acordo, e que “21% restantes compartilharam notícias sobre a parceria e críticas legítimas à iniciativa”.

Nada nos dados oferecidos pelo artigo confirma as afirmações dos autores de que trata-se de uma “lógica de guerrilha virtual”, ou que o debate foi pautado por pequenas ações concertadas no ambiente digital, nem muito menos que tal debate tenha elevado potencial de danos reais ao debate público e ao processo político-eleitoral.

O artigo todo se esforça para passar a impressão de que há dois lados nessa contenda, o virtuoso, das agências de fact-checking orientadas “pelo propósito de qualificação do debate público”, e o malicioso, de seus críticos, “grupos supostamente ameaçados que desatam ataques marcados pela ação de trolls, perseguições pessoais, ‘fake news’ e ações de robôs”. Contudo, o único dado fornecido sobre o uso de robôs na contenda, que utiliza metodologia de identificação desenvolvida pelo FGV-DAPP, a qual não vai explicitada no texto, aponta que 23,7% dos retuítes entre os críticos do acordo entre as agências de fact-checking e o Facebook originaram-se de robôs, enquanto no lado dos defensores essa proporção foi de 16,6%. Ora, é uma diferença bastante pequena para se fazer tal distinção moral entre as intenções últimas de cada lado da contenda. O dado mais revelador é a alta proporção do uso de robôs por parte dos grupos simpáticos às agências de fact-checking. Por que será que pessoas tão interessadas na saúde do debate público lançariam mão de expediente que os autores do artigo sugerem ser tão deletério para o próprio debate público?

O artigo ainda acrescenta uma comparação retórica à onda de notícias falsas que se seguiu ao assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), sugerindo que as críticas ao acordo das agências seriam da mesma natureza. E termina recomendando “o acompanhamento em tempo real dos acontecimentos nas redes sociais, para identificação das ondas de desinformação”, ou seja, fact-checking.

Mas afinal de contas, para além da laudação do relatório da FGV, o que de fato fazem as agências de fact-checking – com o perdão do trocadilho? Nesse curto artigo, vou me limitar a analisar a primeira página do site da própria Lupa, que contém 11 artigos produzidos pela agência. Há basicamente três tipos de artigos:

  • 6 análises de supostas notícias falsas que circularam no Facebook;
  • 3 checagens de fatos de pronunciamentos de políticos (Ciro e Temer);
  • 2 artigos defendendo a própria agência, sendo um deles aquele comentado acima.

Descontando os artigos de defesa, motivados pelo debate acerca do acordo com o Facebook, essa amostra revela bastante bem os objetivos de agências de fact-checking como a Lupa. São basicamente dois: combater supostas fake news nas redes sociais e desconstruir discursos de políticos.

Não há palavras acerca das notícias falsas ou altamente enviesadas que circulam na grande imprensa. Essa ausência é escandalosa para quem se autodeclara paladino da qualidade do debate público, dado que a grande imprensa brasileira tem se comportado de maneira extremamente politizada desde pelo menos a volta do país ao regime democrático. Há bibliotecas de textos acadêmicos comprovando tal fato. Mas nem precisamos apelar para a academia. Basta ver a capa da revista Época às vésperas do segundo turno da eleição de 2014, fazendo propaganda descarada de Aécio Neves. Entre muitas pérolas, vai impresso em letras garrafais “O meu vai ser o governo dos pobres”. Ou as capas da Veja e Isto É na mesma semana atacando o PT com notícias que até hoje não foram comprovadas, depois de anos de investigações da Lava Jato. E as coberturas de O Globo, Estadão e Folha de S. Paulo, marcadas por viés fortemente antipetista e recheadas de meias-verdades, para usar um termo brando, será que as agências de fact-checking estarão dispostas a denunciar essas práticas?

É claro que não. Basta notar as associações entre tais agências e os grandes órgãos de mídia. Tomem a Lupa como exemplo: sua diretora é colunista da Época e seu site é hospedado no portal UOL, em página com subtítulo da Folha de S.Paulo. Há um paradoxo bastante claro aqui: como promover a qualidade do debate público se a grande mídia é responsável em grande medida pela deterioração do debate público?

Mal disfarçando o conflito de interesses que advém de sua associação com a grande mídia, as agências de fact-checking miram somente para as míticas fake news. Ao fazer isso confirmam uma vez mais sua função acessória da grande mídia na manutenção do monopólio sobre a produção da “verdade”. De quebra, criticam os discursos de políticos, atividade que pretende lhes conferir um semblante de independência em relação à política.

Não há democracia que funcione sem um debate público saudável, e a base mínima para que isso ocorra é a pluralidade de opiniões e pontos de vista. Os trabalhos do Manchetômetro e de tantos outros acadêmicos e críticos têm mostrado a ausência quase total dessa pluralidade na grande mídia brasileira. As agências de fact-checking, da maneira como estão sendo organizadas em nosso país, prestam-se à função de combater a ameaça que a mídia alternativa representa ao monopólio da produção da informação exercido pela grande mídia.

É claro que existem grupos nas redes sociais interessados em disseminar falsidades e notícias maliciosas, mas há também aqueles preocupados em combater as versões distorcidas dos fatos propaladas pela grande mídia. Se o objetivo é melhorar a qualidade do debate público, precisamos ir além da checagem do burburinho das notícias virais das mídias sociais e checar as versões dos fatos propaladas pela grande imprensa e, agora também, a atividade das próprias agências de fact-checking.

O Brasil precisa desse fact-checking acima de tudo.

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