Henrique Meirelles, o MDB e a cristianização na política

Por Theófilo Rodrigues¹

Na manhã desta terça-feira o presidente do MDB, senador Romero Jucá, confirmou a pré-candidatura presidencial de Henrique Meirelles pelo partido. Será a primeira vez que a legenda terá um nome na disputa presidencial desde a fracassada candidatura de Ulysses Guimarães em 1989.

Ministro da Fazenda no governo de Michel Temer, Meirelles terá a missão de defender o legado governista num momento em que as pesquisas de opinião apontam que o governo não passa de 4% de aprovação popular. As mesmas pesquisas de opinião indicam que Meirelles não passa de 1% de intenções de voto.

Romero Jucá anunciou que Meirelles será o candidato do MDB. Mas será que as lideranças regionais do partido realmente apoiarão alguém que não tem expectativas de vitória?

Em política, diz-se que um candidato foi “cristianizado” quando o próprio partido o abandona à própria sorte. O termo foi cunhado a partir da experiência brasileira de 1950 quando o PSD lançou a candidatura presidencial do mineiro Cristiano Machado, mas as lideranças regionais do partido apoiaram a vitoriosa eleição de Getúlio Vargas.

No Rio de Janeiro, os principais dirigentes do partido foram presos: Jorge Picciani, Eduardo Cunha e Sergio Cabral. Os que não foram presos pediram desfiliação e foram para o DEM: Eduardo Paes e Pedro Paulo. E o DEM já tem como candidato presidencial Rodrigo Maia. No Paraná, o MDB do senador Roberto Requião já declarou por diversas vezes ser oposição ao projeto político de Meirelles. O mesmo acontece em Alagoas onde o principal nome do partido, senador Renan Calheiros, é opositor do governo Temer. No Pará, o senador Jader Barbalho pretende eleger seu filho governador e para isso se aproximou de Lula contra Temer. No Ceará, o senador Eunício Oliveira se aproxima do PT de Lula para garantir sua reeleição. No Piauí, o partido liderado pelo deputado Marcelo Castro não apenas participa do governo estadual do PT como apoiará a reeleição de Wellington Dias.

Ao que tudo indica, a candidatura de Paulo Skaf ao governo de São Paulo será a única que exibirá com orgulho o nome de Meirelles em seus materiais. Na Bahia isso até poderia ocorrer, mas a prisão de Geddel Vieira Lima acabou com qualquer protagonismo que o partido ainda tinha no estado.

A percepção de que essa seria uma batalha impossível de ser vencida fez Temer desistir de ser candidato. Mas o partido no governo não ter um candidato presidencial seria também uma admissão de fracasso. A incansável e autossustentável pretensão eleitoral do milionário Henrique Meirelles parece ter caído como uma luva para os dirigentes nacionais do MDB que se encontravam em uma sinuca de bico. Fingem que terão candidato sabendo desde já que ninguém o apoiará. Esperam pacientemente pelos nomes que chegarão ao segundo turno em outubro, quando só então decidirão para onde a legenda irá.

Henrique Meirelles, quase 70 anos depois, reedita a cristianização na política brasileira.

 

1. Theófilo Rodrigues é professor substituto do Departamento de Ciência Política da UFRJ. Mestre em ciência política pela UFF e doutor em ciências sociais pela PUC-Rio.

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