Mídia e eleições

Por João Feres Jr.

Um filósofo grego antigo, de nome Aristóteles, escreveu que o “homem é por natureza um animal político”, por político ele queria dizer “feito para viver na polis”, que é a palavra grega para cidade. A ideia central de Aristóteles aqui é que o homem só é capaz de realizar todo seu potencial humano quando vive em comunidade, isto é, com outros homens. E isso se dá porque um homem sozinho não é capaz de dominar todas artes e técnicas necessárias para uma vida plena: imagine que para fazer isso já naquela época uma pessoa solitária precisaria saber plantar e colher o trigo, fazer pão, vinho, roupas, calçados, pavimentar ruas, escrever livros, dominar a arte da guerra, etc. Em uma palavra, impossível. Logo após dizer que o homem é por natureza político, Aristóteles emenda que ele é também um animal dotado de linguagem. Esse é o complemento perfeito para o que ele havia dito antes, pois o homem só consegue viver em comunidade com os outros homens, e assim produzir tudo necessário para uma vida plena, se eles se comunicarem, pois é pela comunicação que eles conseguem coordenar suas atividades para atingir fins comuns. É também por meio da comunicação, da linguagem, da conversa, que os homens fazem as escolhas que regulam a própria vida coletiva: leis, princípios morais, valores, costumes, etc.

O que isso tem a ver com eleições? Tudo. Proponho que você leitor pense a eleição como um complexo processo comunicativo no qual um pequeno grupo de pessoas, os candidatos, se esforçam para convencer um grupo bem maior de pessoas, os eleitores, a escolherem seus nomes na urna. Para constatarmos de maneira simples e direta que a eleição é de fato um processo comunicativo, basta comparamos as pesquisas de intenção de votos para presidente no começo da campanha e o resultado que sai das urnas. É quase sempre bastante diferente. Isso quer dizer que as pessoas no começo da campanha têm preferências eleitorais e que muitos alteram suas preferências ao longo do trajeto. E essa mudança se dá porque essas pessoas recebem informações que as fazem mudar de opinião, seja de outras pessoas, seja dos meios de comunicação.

A nossa sociedade tem uma diferença importante em relação a Atenas do século IV AC, onde viveu Aristóteles: sua dimensão. Em uma cidade de 30 mil cidadãos, a informação sobre as coisas da política se dava na base do boca-a-boca. Bastava ir à ágora, a praça pública, para ficar sabendo das fofocas mais quentes do momento. As metrópoles de hoje têm milhões, às vezes dezenas de milhões de habitantes. Vários países, como o Brasil, têm mais de uma centena de milhões de habitantes. Nesses contextos contemporâneos quase tudo que sabemos sobre política não nos vêm da conversa direta com outras pessoas, mas dos meios de comunicação de massa, também conhecidos pelo nome coletivo de grande mídia.

Com raríssimas exceções, ninguém conhece pessoalmente Temer, Lula, Dilma, Alckmin, Doria, Ciro Gomes, Obama, Bush, Trump, ou muitas vezes o prefeito da própria cidade. Quando mais sabe o que disseram, quando disseram e porque disseram. Quase ninguém tem informação direta sobre as leis que passaram na Câmara, o acordo fechado entre partidos no senado, a nova política do Ministério da Saúde, etc. Todas essas informações nos chegam de maneira intermediada, daí o nome mídia, do latim media, que quer dizer “meios”.

Durante a eleição o interesse das pessoas pela política aumenta, particularmente se a eleição é para presidente, como agora em 2018. Isso é natural, pois a plataforma de cada candidato, de cada partido, não é nada mais do que uma proposta para como o país e o governo devem se organizar, serem geridos, nos próximos anos. Os candidatos têm basicamente três maneiras de se comunicar com seu eleitorado potencial: a primeira delas é por meio de eventos de campanha, comícios, passeatas, carreatas, panfletagem, etc; a segunda é o horário eleitoral gratuito, e a terceira a cobertura da mídia.

Em uma eleição presidencial a primeira modalidade, o contato direto entre candidato e eleitor, tem efeito limitado, pois o eleitorado que é preciso atingir para competir é muito grande. A segunda modalidade, o horário eleitoral gratuito, é extremamente importante, pois é praticamente a única oportunidade que os candidatos e partidos tem de se comunicar diretamente com a massa da população sem ter que se submeter ao escrutínio das empresas de mídia. A terceira modalidade, que corresponde à cobertura jornalística da campanha eleitoral está sob controle dos editores e proprietários dos meios de comunicação, em grande medida.

Infelizmente, o Brasil tem um dos sistemas de mídia mais concentrados e desiguais do mundo e isso é um problema sério para o bom funcionamento de nossa democracia. Um pequeno grupo de seis empresas domina a produção de conteúdo jornalístico que circula no país. A maior parte da imprensa fora desses grupos se contenta em reproduzir os conteúdos que deles vêm.

O IESP nas Eleições vai produzir análises frequentes do comportamento da grande mídia brasileira nas eleições de 2018. Contamos com a parceria do Manchetômetro, website que contém ferramentas poderosas de análise da cobertura dos grandes jornais brasileiros e do jornalismo televisivo em pleno funcionamento desde 2014. Também a partir da base de dados do Manchetômetro produziremos estudos ad hoc sobre temas quentes da eleição.

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