O debate político no Facebook: entre a participação e o espetáculo

Natasha Bachini¹

A analogia entre a Política e o Futebol no Brasil é um recurso interpretativo que volta à moda de tempos em tempos, o que para alguns é um clichê, mas diz muito à respeito de nossa sociabilidade e sobre as distâncias entre a normatividade e a empiria. Observando os acontecimentos políticos dessa década, é raro quem não fez tal comparação. Também pudera, visto a forma como a população se inflamou diante das concorrentes narrativas sobre a conjuntura, como os procedimentos institucionais foram conduzidos e outras diversas similitudes que aproximaram esses universos. Portanto, durante a Copa do Mundo, fica ainda mais difícil resistir a essa tentação.

Nas sociedades contemporâneas, a espetacularização da vida alcança o seu ponto máximo. Em nenhum outro momento da história as relações sociais foram tão mediadas pelas imagens como agora. Contribui de maneira decisiva para a configuração de tal cenário a incorporação das tecnologias digitais ao cotidiano das pessoas, e a decorrente difusão das mídias sociais, cuja comunicação se baseia, fundamentalmente, em imagens.

No que concerne à Política, as tecnologias digitais foram se constituindo como indispensável campo de disputa no Brasil a partir das eleições de 2010, quando as mídias sociais favoreceram a aproximação entre candidato e eleitor, a veiculação de propaganda e ampliaram o debate político. Desde essa data, observa-se crescente investimento das campanhas eleitorais no ambiente online. Já a sua importância no âmbito do ativismo brasileiro passou a ser destacada após as Jornadas de Junho de 2013. O uso das mídias sociais para a organização dos movimentos e mobilização de pessoas foi fundamental para que estes alcançassem a proporção que tiveram, sendo esta, talvez, a principal marca das transformações observadas no ativismo contemporâneo.

De um lado, aqueles com experiência prévia, seja em partidos ou movimentos sociais (especialmente de esquerda), conscientes da relevância desse espaço na disputa da opinião pública, logo o ocuparam, fazendo dele não só um instrumento de mobilização política, mas também transformando o próprio sentido da ação coletiva. De outro, os cidadãos sem histórico de militância política encontraram nelas uma oportunidade de se informar sobre os fatos, debater e, principalmente, posicionar-se para os outros, mostrando-se politizados. Tal uso não somente lhes propiciou a inserção no jogo político sem os custos da participação institucionalizada, mas também evidenciou um dos desdobramentos da cultura da extimidade no ativismo brasileiro hodierno: a ação conectiva.

A indignação que veio à tona em 2013 e viralizou nas mídias sociais foi definitivamente aprofundada a partir de 2014, quando se iniciou um verdadeiro espetáculo midiático sobre a Operação Lava Jato. As investigações foram noticiadas de modo tão intenso pela imprensa que em pouco tempo tomaram a forma de uma epopeia, onde os sistemas de justiça (Polícia Federal, Ministério Público, Judiciário) foram personificados numa saga de combate à corrupção. Isso fez com que, antes que parte da opinião pública, convertida em torcida, manifestasse sua predileção (ou ojeriza, comportamento próprio dos “anti”) por uma agremiação, o fez por um juiz.

Dessa forma, foi se conformando o cenário no qual aconteceriam os principais jogos desse campeonato: as eleições de 2014, o impeachment de Dilma e a prisão de Lula. Ao longo desse período, o debate nas mídias sociais se tornou constante e a mobilização política, onipresente. Entretanto, a heterogeneidade e o relativo consenso característicos de Junho passaram a ser decantados, e algumas fronteiras entre os atores participantes e apoiadores das Jornadas começaram a se desenhar. Logo após as eleições de 2014, difundiu-se o enquadramento dos inconformados com o resultado das urnas, que associava a corrupção ao Partido dos Trabalhadores, novamente eleito, e à crise econômica, recém-chegada ao país. Assim, instaurou-se a crise política e se propagaram movimentos pró-impeachment, que ganharam as ruas do país em 2015. Houve também protestos de resistência ao “gol”pe, organizados pela esquerda tradicional. Tal divisão dos protestos, seu caráter performático e o acirramento político fez com que muitos comparassem o comportamento desses grupos ao de torcedores de futebol. Na internet, esse caráter foi mais notório, visto que o exercício da civilidade e da tolerância não são fundamentais como no contato presencial. Ali, irromperam-se as paixões e as discussões políticas alcançaram níveis semelhantes aos das brigas de torcidas organizadas. Agressões e fake news se sobrepuseram ao exercício da política.

Tendo em vista a importância que as mídias sociais adquiriram no desenrolar desses acontecimentos, iniciamos o projeto M Facebook em novembro de 2017. De lá para cá, nosso monitoramento vem apontando algumas tendências do debate sobre política nessa mídia social. A primeira delas é o predomínio dos posts dos movimentos da nova direita, a saber, Vem Pra Rua Brasil (VPR), Movimento Brasil Livre (MBL) e Juventude Contra Corrupção (JCC), que são os mais compartilhados entre os brasileiros. Estas páginas se promovem, basicamente, a partir da bandeira do combate à corrupção, que é personificada em seus posts pelos políticos do Partido dos Trabalhadores, especialmente por Lula e Dilma Rousseff. Os posts consistem, de modo geral, em memes, que combinam fotos a textos.

Se não são as principais criadoras da polarização política vivenciada no país, estas páginas certamente são as suas mais proeminentes incentivadoras. Tal indução ou endosso de comportamento fica evidente na contraposição, sobretudo, das cores que as compõem, demarcando os limites entre as ideologias e projetos em disputa. O verde e o amarelo predominam em sua estética, em oposição ao vermelho, simbólico da esquerda. Não é difícil que uma foto das manifestações organizadas por esses grupos seja confundida com uma foto da torcida brasileira nos jogos da seleção.

A página da JCC se destaca ainda por outro motivo: a exaltação do juiz Sergio Moro, cuja foto é adotada como avatar da página e atuação é defendida em diversos posts. Porém, enquanto Moro é considerado o herói da nação, acompanhado pelos promotores, os membros do Supremo Tribunal Federal são comumente criticados.

Os posts dos movimentos sociais de esquerda vêm apresentando o mesmo desempenho, de modo que a argumentação por parte deste espectro ideológico tem ficado a cargo, principalmente, das páginas de Lula, Mídia Ninja e Fora Temer. As duas primeiras figuram no ranking desde o começo do monitoramento. A maioria dos seus posts consiste na denúncia do golpe que destituiu Dilma e da perseguição política a Lula. A terceira foi incluída no monitoramento recentemente, e obteve maior visibilidade a partir de posts sobre a greve dos caminhoneiros. As páginas da esquerda investem com maior frequência em vídeos e a cor que predomina nos seus posts é, claro, o vermelho.

No rol das lideranças políticas, destacam-se ao longo do período, além de Lula, que é o personagem mais citado dentre as páginas, Jair Bolsonaro (PSL-RJ) e Marco Feliciano (PSC-RJ). Os deputados, que se localizam no mesmo escopo ideológico, veiculam comumente vídeos em seus posts. Estes se guiam pelo enquadramento que combina de modo esquizofrênico o discurso anticorrupção, o nacionalismo, o liberalismo econômico, o militarismo, o moralismo religioso e o punitivismo, e entende a esquerda e o comunismo como principais ameaças a esses valores. Bolsonaro e Feliciano se dedicam também a desprestigiar as instituições políticas como um todo, em especial os partidos políticos, surfando na onda do descrédito da representatividade e se apresentando como “o novo” para a população, mesmo sendo políticos de longa data.

Os altos índices de compartilhamento dos vídeos de Bolsonaro, associados ao seu bom desempenho nas pesquisas de opinião, sugerem que, neste contexto de polarização política, ele vem ocupando o espaço na disputa presidencial que antes pertencia aos tucanos. Os vídeos de seus comícios, além dos de apoio a Lula, são os que atingem maior número de compartilhamentos no Facebook e são os únicos a mostrar centenas de apoiadores. Políticos habituados à corrida eleitoral como Marina Silva, Geraldo Alckmin e Ciro Gomes ainda não alcançaram o ranking. Surpreendentemente, quem bateu tal meta nas últimas semanas foram candidatos outsiders, de partidos nanicos de direita, como o Deputado Cabo Daciolo e João Amôedo. Em seus posts, estes criticam a cobrança de impostos e defendem a diminuição da máquina burocrática.

Tais constatações nos levam a outro clichê. Seria a Política, como o Futebol, “uma caixinha de surpresas”?

Em condições normais, neste pleito apostaria no sistema majoritário de turno duplo, que tende à formação de uma opinião média, excluir os radicais da competição, coibir a discussão de temas polêmicos e direcionar para o consenso. Ou seja, nos candidatos de centro para a disputa ao Executivo. Mas não parece ser o caso.

No pleito anterior, o PT ganhou, e o PSDB, com a ajuda do juiz, pensou que levaria no tapetão, mas quem se deu bem mesmo foi, em um primeiro momento, o (P)MDB e, posteriormente, Bolsonaro. Este último, que jogava na base, foi escalado para o time principal, e vem apresentando bom desempenho, conquistando assim vários torcedores que anseiam pelo “novo”.

Na competição de 2018, expulsaram do time petista seu principal jogador. Entretanto, mesmo jogando sem seu principal craque, o partido não desanima, pois conta uma torcida fiel que incorpora cada vez mais membros, visto que a opinião pública parece não estar mais tão convicta assim da culpa de Lula, desconfiando de todos os envolvidos neste processo. Além disso, “o povo não é bobo”. A maior parte da população, que sofre os efeitos de uma sociedade desigual na pele, logo percebeu a serviço de quem estava o “gol”pe. É essa mesma parcela que nos últimos 16 anos teve mudanças substantivas em suas vidas e conduziu o PT à vitória nos pontos corridos.

Entretanto, até outubro há tempo. Tempo para a propaganda da televisão, ainda a maior influenciadora de votos. Tempo para os partidos tradicionais colocarem seu exército de cabos eleitorais nas ruas. Tempo para os políticos conhecidos mostrarem o quanto a experiência pode fazer a diferença nesse jogo e que cumprir as suas regras é fundamental para a democracia. Tempo para desidratar candidaturas e forjar alianças. Tempo para se esclarecer o que seria “o novo” e para se distinguir projetos de país.

Tudo indica que essa competição, iniciada para alguns em 2013 e para outros em 2014, que já passou por dois formatos, o “mata-mata” e os pontos corridos, provavelmente terminará nos pênaltis, rendendo muito trabalho aos cientistas políticos e nos deixando à flor da pele. Contudo, só não podemos permitir uma coisa: que ocorra mais um “tapetão”.

[1] Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Sociologia do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). Nesta instituição, coordena o projeto M Facebook no Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP) e atua como pesquisadora no Núcleo de Estudos de Teoria Social e América Latina (NETSAL). Mestre em Ciências Sociais pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde participa como pesquisadora no Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (NEAMP). Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/5704777452170998.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *