O que esperam os eleitores indecisos progressistas para o pleito presidencial?

Por Carolina de Paula¹

Há poucos meses do início oficial da campanha eleitoral que levará milhões de brasileiros a decidir quem ocupará a presidência, o que vemos, através dos resultados das últimas pesquisas de intenção de voto, é um eleitorado expressivamente indeciso. São quase 40% de brasileiros que ainda não sabem o destino do seu voto, de acordo com os dados da pergunta espontânea realizada pela CNT/MDA. Também pudera: o país passou por uma série de acontecimentos que, para dizer o mínimo, abalou fortemente o entusiasmo, até mesmo dos mais otimistas, com a força do regime democrático. Para complicar ainda mais, Lula (PT), o candidato líder isolado das pesquisas (tanto na espontânea quanto nos cenários estimulados) segue preso. Assim, o eleitor que estamos chamando aqui de “progressista”, ficou sem uma escolha óbvia. Nesse momento não faltam análises manejando – e às vezes torturando – os dados das pesquisas quantitativas de opinião, porém, a verdade é que esses dados pouco ajudam a entender elementos mais significativos das percepções dos eleitores sobre o país e sobre o pleito de outubro.

Recentemente, entre 05 a 12 de maio, o “Iesp nas Eleições” realizou uma bateria de pesquisas qualitativas com eleitores cariocas. Os dados foram recolhidos utilizando a técnica de de grupos focais. O método é útil para o caso em questão, pois aprofunda temas sensíveis e difíceis de serem explorados num questionário estruturado, ainda mais nesse momento de grande indefinição de candidaturas. Obviamente não é possível generalizarmos os resultados para todo o eleitorado nacional, nem essa é a ideia da pesquisa, levando em consideração que foram somente quatro grupos, e com um perfil bastante específico de indecisos: eleitores (homens e mulheres) da classe C, que votaram em Dilma em 2014 e não rejeitam Lula. Trata-se de uma definição bastante minimalista de “eleitor progressista”, mas que pode oferecer alguns insights desse momento nebuloso da conjuntura política.

Utilizamos como filtro para o recrutamento dos participantes uma pergunta central sobre o apoio (ou não) à condução da Operação Lava Jato. A pesquisa permitiu criarmos um esquema interpretativo do eleitorado progressista em (1) “lulistas” e (2) “pendulares”. Os primeiros são militantes apaixonados e defensores da inocência de Lula (não necessariamente do PT), e estão indecisos pois ainda não sabem quem será o “substituto” do ex-presidente, são extremamente críticos ao modo de condução da Operação Lava Jato. Já os segundos são moderados na defesa de Lula, nesse perfil não há consenso sobre a inocência do ex-presidente. Há também um sentimento de frustração com a política. Alguns inclusive apoiam, mesmo que parcialmente, a Operação Lava Jato (fazendo ressalvas sobre o viés da mesma). Os resultados completos da pesquisa podem ser acessados aqui. Queremos destacar alguns pontos:

    • O cenário atual é de profundo desencanto e distanciamento com a política. O interesse pelas eleições é mínimo, os candidatos que estão no jogo até o momento não despertam entusiasmo e paixão;
    • A avaliação da economia é muito negativa, ao contrário do que vem divulgando a gestão atual com o apoio da imprensa. O salário não rende até o fim do mês. Os participantes sentem que o Brasil passa por uma forte crise, o desemprego assusta e é o principal problema a ser resolvido pelo próximo presidente, seguido pelo tema da segurança;
    • A gestão Lula é vista como a melhor da história recente, tanto pelos “lulistas” quanto pelos “pendulares”. Vale atentar para a existência de um certo ressentimento – justificada pela falta de transparência – daqueles participantes que não receberam diretamente algum benefício (bolsa família, por exemplo);
    • A segmentação de percepções sobre a Lava Jato revela que para os “lulistas” a operação possui um viés e uma intencionalidade em minar o projeto de governo da esquerda. São críticos ao modo pelo qual a operação é conduzida, ainda que achem importante a adoção de medidas de punição para atos de corrupção. Já os “pendulares” observam que a Lava Jato seria a principal tentativa de combater a corrupção excessiva da política brasileira. Contudo, há divisão dentro desse perfil sobre a avaliação do Judiciário. Uma parcela considera que há parcialidade e “lado” na Justiça brasileira (em especial os mais jovens);
    • Os “lulistas” atribuem a Lula um papel fundamental na orientação do seu voto. Esse segmento revela que levaria com maior atenção uma indicação de voto do ex-presidente. Já os “pendulares” acreditam mais nas propostas do potencial candidato, afirmam que a opinião de Lula teria pouco peso na decisão;
    • Em sua manifestação espontânea sobre os pré-candidatos, apenas os integrantes do grupo de jovens “lulistas” demonstraram conhecimento de outras informações sobre eles, para além de seus nomes. Boulos (PSOL) e Manuela D’Ávila (PCdoB) só foram citados espontaneamente nesse grupo. Ciro Gomes (PDT), Marina (REDE), Bolsonaro (PSL) e Joaquim Barbosa (PSB) foram citados espontaneamente em todos os grupos;
    • O candidato que melhor circula entre os “pendulares” indecisos é Ciro Gomes. Acreditam que tem força para ir ao 2º turno. Parcela dos “lulistas” mais velhos avaliam que pode ser uma opção de voto pelas posições atuais contra o golpe. Jovens “lulistas” não identificam nele um perfil de candidato de esquerda que gostariam, mas observam força;
    • Marina Silva aparece com recall negativo. Conhecida por todos, transmite fraqueza. O sumiço da pré-candidata no período entre as eleições é lembrado em três dos quatro grupos. É taxada como “a candidata dos evangélicos”;
    • Alckmin é visto como o candidato tucano de sempre de São Paulo, desagrada os cariocas progressistas pela “cara de paulista”. Não desperta simpatia em nenhum grupo e perfil. Avaliam que dificilmente votariam nele, exceto num 2º turno entre ele e Bolsonaro. Contudo, avaliam que tem o apoio dos empresários e pode crescer;
    • Já Bolsonaro é amplamente conhecido, é visto como falastrão e preconceituoso entre “lulistas” e “pendulares”. Não votariam de modo algum, porém temem que possa crescer entre os jovens.

A pesquisa enfocou somente eleitores de uma capital brasileira e com poucas quebras de variáveis sociodemográficas. Os “lulistas” seguem aguardando uma definição do seu líder. Parte dos eleitores “pendulares” tinha em Joaquim Barbosa uma possibilidade de voto; para esse perfil a questão da corrupção é um ponto importante na escolha do candidato, outra parcela segue aberta e tendendo a Ciro, já que os candidatos do PSOL e PCdoB parecem utópicos para esse eleitorado carente de políticas públicas e de menos discurso partidário. Por isso, vale explorar melhor os sentimentos do perfil “pendulares” do campo progressista em outras cidades (de pequeno e médio porte). Esse parece ser o tipo de eleitor mais suscetível e à caça de um candidato. É sugestivo o desencanto com a questão partidária, há no momento um claro desejo em ouvir políticas concretas para a retomada do crescimento econômico e que permitam a geração de empregos. Esse perfil, chamado aqui de “pendulares”, ao menos na cidade do Rio de Janeiro experimentou os benefícios da era Lula-Dilma, mas não está disposto a seguir necessariamente a orientação do candidato ungido por Lula. Ciro Gomes parece ser quem mais ocupa esse lugar, ao menos provisoriamente.

[1] Pesquisadora sênior do NECON-IESP e sócia diretora da Vértice Inteligência em Pesquisa.

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