Partidos de empresários: Partido Novo e seus pares na América do Sul

Rodrigo Mayer1

Nas últimas décadas um novo fenômeno tem ocorrido: o surgimento – e consolidação enquanto atores importante – de partidos criados pela classe empresarial (com destaque para o Forza Itália de Sílvio Berlusconi). A criação deste tipo de partido não implica dizer que os empresários estivessem distantes da política ou que não encontrassem representados pelos partidos tradicionais, mas que estes veem incentivos para uma participação mais direta na arena política, sem a presença de intermediários, neste caso, os partidos tradicionais.

Segundo a bibliografia especializada (Duverger, 1970; LaPalombara; Werner, 1966) os partidos políticos surgem devido a fatores institucionais (advento dos parlamentos nacionais), processos de modernização ou momentos de crise. No entanto, a emergência de novos atores não se restringe somente a estes fatores e podem ser criados, a partir de estruturas de oportunidades que possibilitam a emergência destes novos atores, essas podem se referir a mudanças no quadro institucional – como novas leis eleitorais, mais permeáveis a criação de novos partidos –, alta volatilidade eleitoral e fragmentação, crises econômicas, políticas, sociais, de representação, etc.

O surgimento de novos partidos é constante na democracia, estes são criados e extintos constantemente – alguns partidos duram apenas uma eleição, como a maioria dos partidos brasileiros na década de 1980, outros tem vida mais longa, mas logo desaparecem devido e insucessos eleitorais ou colapso do sistema partidário (FREPASO na Argentina, por exemplo), por fim, existem aqueles que conseguem se estabilizar dentro do sistema, seja como um importante ator ou como um partido periférico –, por isso, a criação de partidos criados por empresários não é uma novidade por si só.

Na América Latina, o surgimento de partidos com essa orientação ganhou força nas duas últimas décadas, após as fortes crises políticas, econômicas e sociais que atingiram a região e enfraqueceram os partidos tradicionais (principalmente nos Andes), abrindo espaço para novas legendas que desafiam o status quo ou se colocarem como importantes competidores. Dentre os partidos formados por empresários da região, três se destacam: CREO no Equador, UN na Bolívia e, o PRO na Argentina.

O CREO (Movimento Criando Oportunidades) surgiu em janeiro de 2012 como resultado do desdobramento do colapso do sistema partidário equatoriano em 2007. Já nas eleições de 2013, a legenda alçou a segunda posição nas eleições presidenciais e nas eleições de 2017, se consolidou como a principal força opositora a Alianza País (que governa o Equador desde 2007). Sua formação ocorreu em torno do empresário Guillerme Lasso (empresário e banqueiro) e a legenda defende temas ligados à direita no espectro político.

A Frente de Unidade Nacional também surgiu em meio a turbulências de um sistema político-partidário (no caso, o boliviano na virada do século) e buscou se posicionar como uma alternativa aos partidos tradicionais (e ao MAS que surgiu no mesmo período). Ao longo se sua trajetória o partido buscou defender políticas que defendessem o interesse do empresariado. Do mesmo modo que o CREO, a legenda foi fundada por um empresário, Samuel Doria Medina (empresário do ramo de construção civil e nas últimas décadas também se dedicou ao ramo hoteleiro e alimentício), e se converteu na principal força opositora ao partido dominante de seu país (Torrico, 2014).

Talvez o caso mais famoso da região, o PRO (Proposta Republicana) foi fundado em 2008 para servir de plataforma política ao ex-presidente do Boca Juniors e empresário, Maurício Macri (Vommaro; Morresi, 2014). A legenda desde sua fundação (e nas organizações e alianças que a precederam desde o começo do século) tem como agenda a defesa de políticas neoliberais e a defesa dos interesses do mercado. Diferentemente dos outros dois casos citados, o partido chegou à presidência em 2015, após sucessivas vitórias nas eleições municipais de Buenos Aires, com a vitória de Macri sobre o candidato justicialista (Daniel Scioli).

A aproximação do empresariado com os partidos políticos brasileiros não é nova e não se restringe apenas a uma legenda. Ao longo de nossa história, muitos empresários se apresentaram nas eleições concorrendo sob o rótulo de agremiações tradicionais, como a UDN, por exemplo. Nos últimos anos, com o desgaste da classe política se viu o retorno do discurso de atores que – apesar de se apresentarem nas eleições, terem carreiras ligadas a política e um discurso político – se apresentam como gestores e não políticos, com João Dória (PSDB), sendo o melhor exemplo.

Neste cenário de descrédito com a política, existe o incentivo para a formação de novos partidos, ou até mesmo a mudança de identidade de antigos partidos, seja através de novas lideranças, seja com a adoção de um novo nome (como ocorreu em profusão no ano passado). Dentro desta conjuntura, o surgimento do Partido Novo se insere em um contexto de expansão do sistema partidário e de desgaste do mesmo perante a opinião pública, isso fica evidenciado no discurso de formação do partido que argumentava que este era formado por indivíduos da sociedade civil, sem ligações com partidos ou com a política.

O processo de formação da legenda começou em 2011 e foi concluído em 2015, a tempo de disputar as eleições de 2016 (no qual elegeu somente 4 vereadores). Desde a sua construção, o partido foi identificado como um partido de empresários (mais especificadamente, como um partido de banqueiros) devido a grande quantidade de funcionários do alto escalação do Itaú entre seus fundadores (com destaque para João Amoedo, candidato à presidência da República pelo partido e principal financiador de sua formação, contribuindo com quatro milhões e meio de reais dos cinco milhões que foram gastos no processo).

Programaticamente, a legenda defende questões ligadas ao empreendedorismo (diminuição de impostos,, de direitos trabalhistas, etc.), ao liberalismo econômico (diminuição do papel do Estado, privatizações e defesa dos interesses do mercado) e temas ligadas ao liberalismo político. Neste último ponto, é fundamental fazer uma observação: O liberalismo econômico não é sinônimo de liberalismo político, por mais que o termo liberal, seja confundido com as questões econômicas, o liberalismo econômico e político tratam de questões diferentes e muitas vezes contraditórias entre si (Sartori, 2008). No caso do Novo, a defesa das liberdades individuais se concentram na defesa do casamento homoafetivo, na liberdade de imprensa e expressão – entretanto, o partido foi autor da ação que impediu a entrevista do ex-presidente Lula à Folha de São Paulo e ao El País –, com outros temas como o direito ao aborto, legalização e descriminalização da maconha, sendo definidos a critério de cada candidato. A legenda também se aproxima de temas caros ao conservadorismo, como o fim do estatuto do desarmamento, a extinção da política de cotas e o retorno do financiamento empresarial para as campanhas, com o fim do fundo partidário.

Mesmo tendo se originado em um período de crise de representação e descrédito da população com a classe política, o desempenho eleitoral do partido ainda é discreto (tanto nas primeiras eleições que disputou, quanto nas projeções atuais, em que seu candidato à presidência não ultrapassa 3% das intenções de voto e tão pouco espera-se uma bancada expressiva da legenda). Diferentemente dos outros partidos citados, a chamada crise de representação no Brasil não levou os partidos tradicionais ao colapso e abriu espaço para outras agremiações os substituírem, mas sim aumentou a fragmentação com o crescimento da oferta partidária, na qual os novos e velhos partidos disputam espaço entre si. No caso argentino, boliviano e equatoriano, a crise levou ao enfraquecimento de forças tradicionais (como a UCR na Argentina) e/ou suas extinções (como nos casos dos países andinos), o que abriu espaço para novos partidos surgirem e se apresentarem como atores competitivos nas eleições.

[1] Bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), mestre em Ciência Política pela UFPR, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pós-doutorando em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). E-mail: mayer.rrm@gmail.com

Referências Bibliográficas

CREO. 2018. Disponível em: <http://creo.com.ec/> Acesso em: 01/10/2018.
Duverger, Maurice. 1970. Os partidos políticos. 2ª Edição. Rio de Janeiro: Zahar/UNB.
LaPalombara, Joseph; Weiner, Myron. 1966. “The origin and development of political parties”. In Political parties development, edited by Joseph LaPalombara and Myron Weiner. Princenton: Princenton University Press.
Partido Novo. 2018. Disponível em: <https://candidatos.novo.org.br/home> Acesso em: 01/10/2018.
Sartori, Giovanni. 2008. La democracia en treinta lecciones. Madrid: Taurus.
Torrico, Mario. 2014. “Bolivia: nuevo sistema electoral presidencial y coordinación política de los partidos”. Perfiles latinoamericanos, 22(43): 77-102.
Vommaro, Gabriel; Morresi, Sergio. 2014. “Unidos y diversificados: la construcción del partido PRO en la CABA”, Revista SAAP, 8(2): 375-417.

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