Pela retomada do “primado da política”

Rodolfo Scotelaro Porto Darrieux*

A conjuntura nacional e internacional andam altamente instáveis e complexas. O mundo passa por um momento no qual outsiders¹ da política ganham espaço, há uma grave crise migratória, governantes são depostos, movimentos políticos extremistas vêm ganhando força etc. No entanto, o que vem gerando este cenário de mal estar geral é ponto de debate desde as pessoas reunidas numa mesa de bar até fóruns de lideranças políticas e agentes do mercado.

Um dos principais motivos dos problemas atuais é a negação da política. Mais precisamente, a persistência dos problemas sociais causados pela crise financeira de 2008 gerou disputas políticas radicalizadas a ponto dos grupos políticos encontrarem grandes dificuldades de chegarem a acordos. Exemplo emblemático disto é o caso espanhol onde o primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy (PP)² em 2016 só conseguiu formar governo após 3 tentativas.

De uma maneira geral, o que explica a ascensão da negação do “primado da política” é reflexo de tentativas mais extremas de solucionar problemas causados pelo mal-estar gerado pela crise do capitalismo financeiro iniciada em 2008. Na Grécia, apesar do SYRIZA ter sido eleito em 2015 com forte discurso anti-austeridade e ter tipo amplo apoio popular para não seguir as imposições do Banco Central Europeu, não logrou sucesso. Isto significa que no mínimo conciliar medidas mais redistributivas com uma agenda econômica hegemônica de austeridade não é fácil. É aí que mora a negação do “primado da política”, ou seja, o espaço para que outras agendas ganhem espaço e assim dificultando a barganha entre diferentes atores políticos.

No Brasil não foi diferente. Com um cenário de crise econômica se desenhando entre 2013 e 2015 e a pressão dos mercados se intensificando, a coalizão que dava sustento à então presidenta Dilma Rousseff (PT) se rompeu e apoiou um impeachment no mínimo polêmico, mesmo com a ex-presidenta tentando, num ato desesperado, sinalizar para os mercados nomeando Joaquim Levy para a Fazenda. A tentativa tardia e frustrada de Dilma na nomeação de Levy e a manobra política pela deposição da ex-presidenta realizada pela maioria dos partidos no Congresso, apoiada por diversos setores do capital, mostra como o discurso pró-austeridade é capaz de ultrapassar qualquer tipo de negociação política. Nas eleições presidenciais brasileiras deste ano, fica evidente em boa parte dos principais candidatos o discurso pró-austeridade, com a exceção dos candidatos mais ligados ao campo da esquerda e centro-esquerda: os indicados pela chapa encabeçada pelo PT e PCdoB (Lula, Fernando Haddad e Manuela D’Ávila), Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (PSOL). Até mesmo o outsider Jair Bolsonaro (PSL) abraça abertamente o discurso dos setores pró-austeridade em detrimento dos demais. O que deixa nítido como uma figura que ganhou força num cenário de crise no campo econômico segue padrão similar à maioria dos candidatos.

Em tal cenário, políticas redistributivas – como transferência de renda – seguem sendo possíveis de serem realizadas, no entanto, encontram mais limitações em relação à chamada Era de Ouro do Capitalismo, que durou de 1945 com o fim da Segunda Guerra até os anos 1971-1973 com o colapso dos acordos de Bretton Woods³, a crise do petróleo e o crash da Bolsa.

Assim, a política fica sempre sob o risco de ser deslocada para atender a uma agenda específica e o espaço onde ela ocorre – o Estado – vira e mexe é atacado. A economia por si só, como apontam uma série de estudiosos4, é imperfeita, impera o caos, as disputas individuais – seja entre empresários, seja entre trabalhadores e seja entre empresários e trabalhadores. É o reino em que, sem freios, o mais forte sempre vencerá o mais vulnerável, colocando milhares de indivíduos sob uma série de privações e provocando conflitos sociais. Nesse sentido, somente a política é capaz de controlar esses conflitos da maneira mais civilizada possível. Nesse sentido, a política nos últimos tempos vem, no mínimo, tendo dificuldades de cumprir sua principal função, que é se impor como controle social e assim garantir que os interesses distintos na sociedade sejam resolvidos da melhor forma possível.

*Doutorando em Ciência Política (IESP/UERJ)
[1] Aquele que vem de fora do jogo político tradicional.
[2] Partido Popular: Partido político de centro-direita espanhol.
[3] Para mais informações sobre os acordos de Bretton Woods, acessar links: Jornal O Globo: http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/conferencia-de-bretton-woods-decidiu-rumos-do-pos-guerra-criou-fmi-13310362
Página na Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Acordos_de_Bretton_Woods.
[4] Recomendo a leitura de autores como o filósofo político Thomas Hobbes, sociólogo Karl Polanyi, o economista John Maynard Keynes, a cientista política Sheri Berman entre outros.

Uma versão deste texto foi publicada e se encontra disponível no blog “Política, Cultura e Arte”. Link: https://politiculturarte.wordpress.com/2018/02/20/pela-retomada-do-primado-da-politica/

Fonte da imagem: https://www.flickr.com/photos/elkokoparrilla/10246808144

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *