Política, entretenimento e polêmica: Bolsonaro nos programas de auditório

Victor Piaia*
Raul Nunes**

Jair Bolsonaro é um fenômeno midiático. Isso é consenso em todas as análises sobre o deputado federal e candidato à presidência líder nas intenções de voto nos cenários sem o ex-presidente Lula. Em geral, considera-se que nesse aspecto o deputado tem muito em comum com Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. Os analistas ressaltam o papel que cumpriram as redes sociais na ascensão de ambos (impulsionados também por notícias falsas e robôs), bem como a posição beligerante dos dois em relação a pautas morais e identidades minoritárias.

Nesse sentido, as comparações entre os dois e os escritos sobre o caráter midiático de Bolsonaro levam em conta a inovação trazida pelo tipo de mídia (internet) utilizado e pela reedição do conteúdo conservador presente em seus discursos. Há um terceiro elemento, contudo, que deve se observado: a forma com que esses políticos se apresentam ao público.

Trump foi apresentador do reality show The Apprentice (O Aprendiz), que teve 14 temporadas ao longo de 11 anos (2004-2015). No programa, o empresário, conhecido por ter se tornado bilionário, propunha uma série de desafios empresariais através de fases eliminatórias para que, ao fim, o vencedor se tornasse seu funcionário. Além disso, seu trabalho como produtor (e dono) do Miss Universo lhe rendeu, em 2007, uma estrela na calçada da fama de Hollywood, o que o transformou definitivamente numa celebridade.

Jair Bolsonaro tem trajetória diferente. Não é conhecido por ser empresário, nem estrela de TV, mas por ser militar. O capitão do Exército passou à reserva em 1988 para se candidatar a vereador da cidade do Rio de Janeiro, sendo eleito naquele ano. De 1990 em diante disputou todas as eleições para deputado federal, sendo vitorioso em todas e exercendo agora seu sétimo mandato. Embora tenha sido figurinha carimbada em notas e matérias de jornais nesse tempo, a partir de 2010 houve uma inflexão: Bolsonaro se tornou um personagem constante dos programas de auditório de emissoras de baixa audiência (Band, SBT e RedeTV!). Ou seja, para além das páginas de política dos jornais impressos e dos programas de jornalismo da televisão, o deputado abriu uma nova frente de exposição midiática: o entretenimento.

Entre 2010 e 2018 Bolsonaro ocupou um espaço incomum para políticos na TV aberta brasileira. Coletando somente para programas de entretenimento na TV aberta em que o parlamentar foi o principal convidado, somam-se 33 participações. Para efeito de comparação, Jean Wyllys e Marco Feliciano, outros dois deputados com bastante exposição, participaram 9 e 12 vezes, respectivamente. As participações de Bolsonaro ocorreram em programas como Agora é com Datena (1), Agora é Tarde (3), Casos de Família (1), CQC (5), Manhã Maior (1), Mega Senha (2), Mulheres (1), Okay Pessoal (1), Pânico na Band (1), Programa do Ratinho (2), Programa do Raul Gil (1), Quem convence ganha mais (1), Superpop (11), The Noite (1) e Você na TV (1). Destas, a maioria foi na Band e na RedeTV!, com apenas uma participação na TV Gazeta¹.

Duas atrações se destacam desse conjunto. A primeira é o Pânico na Band, que, apesar de ter contado com a participação presencial do deputado somente uma vez, exibiu, entre março e dezembro de 2017, 34 episódios do quadro “Mitadas do Bolsonabo”, em que o humorista Márvio Lúcio interpretava o parlamentar interagindo com a população. Deve-se ressaltar, também, que Bolsonaro foi entrevistado 3 vezes na edição de rádio do programa Pânico em menos de 2 anos (entre 2016 e 2018).

A segunda atração é o programa Superpop, apresentado por Luciana Gimenez na RedeTV!, do qual Jair Bolsonaro participou 11 vezes entre 2010 e 2018. O parlamentar praticamente se tornou membro do time de comentaristas do programa, participando três vezes no ano de 2016 e duas em 2011 e em 2017. Em mais uma rápida comparação, Jean Wyllys e Marco Feliciano participaram no total uma e quatro vezes, respectivamente.

À exceção do Mega Senha, em que o parlamentar foi convidado com o filho Eduardo para participar de jogo de lógica e raciocínio, nos outros o centro das atenções era suas opiniões. Esses programas de auditório têm duas estruturas principais: entrevista e debate. Agora é Tarde e The Noite, por exemplo, exibem o formato de talk show, em que o apresentador faz uma longa, porém dinâmica, entrevista com o convidado. No Superpop e no Programa do Raul Gil o deputado continua sendo o elemento central, mas agora é chamado a confrontar suas opiniões com outros convidados ilustres. Os convidados são majoritariamente (sub)celebridades LGBT e/ou militantes da causa: Léo Áquilla, Thammy Miranda, Moranguinho (ex-BBB), Luisa Marilac, Felipeh Cortes, Christian Pior, Maite Schneider e Toni Reis (ABGLT). Mulheres e negros também fazem parte da trupe, havendo ainda a participação do parlamentar numa edição do Casos de Família com ex-presidiários – programa esse conhecido por ser palco de barracos familiares. O que se busca em todo caso é a polêmica, sendo os debates permeados por gritarias, palmas, vaias, bem como afirmações e questionamentos duvidosos das partes envolvidas.

Em 2010 o deputado participou de programas da RedeTV!, Band e SBT convidado a discutir temas como a Lei da Palmada e o Kit Anti-homofobia (apelidado de “kit gay”), enfatizando que os pais deveriam poder bater em filhos gays para “corrigi-los” e que a escola não deveria tratar de gênero e sexualidade. Em 2011, uma resposta racista a um questionamento feito pela cantora Preta Gil no CQC jogou os holofotes sobre o parlamentar, que apareceu em 5 programas em menos de dois meses para dar explicações e provocar novas polêmicas. Só no Superpop Jair Bolsonaro foi entrevistado duas vezes nesse período. Acusações e análises sobre o caso inundaram noticiários pelo país.

Após esse período de turbulência, marcado por uma postura defensiva do parlamentar, há uma clara mudança de postura por parte dele e dos programas. Aos poucos, o cardápio de polêmicas vai se alargando, incluindo temas como a legalização da prostituição, a repercussão do primeiro beijo gay em novelas, as declarações do deputado sobre a diferença de rendas entre homens e mulheres, suas opiniões sobre o programa Bolsa Família e contendas entre o candidato e outros parlamentares, como Jean Wyllys e Maria do Rosário.

Em vez de participações pontuais, buscando explicações e debates sobre temas específicos, os programas se dedicaram a explorar as declarações polêmicas do deputado sobre variados temas, saindo de uma postura mais incisiva e investindo em um trato mais “leve” e respeitoso em relação à sua figura. Apresentadores/as dizem que sua opinião deve respeitada pois “vivemos numa democracia” e porque ele foi “eleito pelo povo”. Bolsonaro, por sua vez, abandona a postura defensiva que marcou suas primeiras participações e se apresenta cada vez mais à vontade, ciente da sua crescente exposição e apostando intencionalmente na criação de polêmicas. Incorpora a imagem de showman.

A entrada de Jair Bolsonaro na programação de entretenimento fez com que sua imagem alcançasse uma exposição totalmente fora do padrão de outros políticos. As idas da então ministra Dilma Rousseff, do então governador José Serra e do senador e ex-presidente Fernando Collor ao Superpop, por exemplo, tinham um tom mais sério, ainda que leve. O diálogo sobre seus feitos e suas trajetórias beirava a chatice. Aliando polêmica e audiência, as participações de Bolsonaro foram marcadas pelo tratamento extremado e irreverente de temas políticos, como num espetáculo grotesco, capaz de atrair a atenção do público a partir da mobilização de sentimentos como raiva, perplexidade e – estranhamente – algum tipo de relaxamento e distração. Passou pelo polígrafo, assistiu a um desfile de modelos seminuas, quebrou pratos ao vivo e jogou Twister com um participante gay, dando um tapa em sua bunda ao final. Como ocorre no humor, o deputado acertava a audiência ao disparar o gatilho entre o cotidiano e o inusitado.

Não se trata de dizer que seus votos são consequência direta da participação nesses programas, mas de pensá-la como vetor fundamental para sua projeção nacional. Antes dessa incursão televisiva ele era apenas um deputado regional verborrágico e representante da classe dos militares. No processo descrito ele vira uma figura nacional, com pautas que extrapolam seu reduto eleitoral próximo. Um exemplo disso é a evolução de sua votação, que, desde o primeiro mandato como deputado federal até 2010, girava entre 90 e 120 mil votos e que, em 2014, chega a 464 mil votos, quatro vezes mais do que conseguira anteriormente. O mesmo se aplica às pesquisas de intenção de voto para Presidência da República, que no final de 2016 indicavam o deputado com média de 6% dos votos e chegam em até 20% no fim de 2017².

O olhar retrospectivo torna evidente que a popularização do parlamentar se deveu, em grande parte, a esses programas de TV³. Fato reconhecido, inclusive, por membros das atrações4. De todo modo, é difícil colocar a culpa em alguém. O caso de Luciana Gimenez, em especial, é controverso. A apresentadora expôs a figura do capitão da reserva à exaustão e de maneira licenciosa, mas sempre se posicionou contra suas ideias. Ademais, o Superpop historicamente foi povoado por participantes LGBT, tendo ainda um quadro (Agulhadas) cedido ao estilista (agora ex-) gay Ronaldo Ésper.

O problema maior, talvez, além da frequência exacerbada, seja o tom dos programas. Ao tratar casos gritantes de racismo, sexismo e homofobia na chave da polêmica e da opinião pessoal, Gimenez e companhia abriram espaço para que o discurso do deputado fosse normalizado, tornando-se mais palatável. O que devia estar na cabeça de muitos desses apresentadores é que posições tão retrógradas não teriam eco na sociedade brasileira hoje e que, por isso, seriam entendidas como absurdas, loucas, infames. Para outros, porém, como Danilo Gentilli, provavelmente entrevistar Bolsonaro seria uma forma de afrontar o “politicamente correto” e resgatar a autenticidade.

Por fim, entendemos que o debate sobre a pluralização de meios comunicativos por parte de parlamentares não deve se resumir à utilização das redes sociais, sendo necessário se atentar para a criação de novas formas de marcar presença na velha programação da TV aberta, bem como de integrar diferentes meios de comunicação (como no compartilhamento de suas entrevistas televisivas em redes sociais e no YouTube). Há, claro, algo de excepcional na intensa participação de Bolsonaro nos programas de auditório, uma vez que é inimaginável que tal estratégia seja utilizada com sucesso por seus 512 colegas na Câmara do Deputados. No entanto, seu exemplo serve como guia para pensarmos transformações na forma como políticos podem se comunicar com o eleitorado a partir de diferentes meios, formas e conteúdos.

*Doutorando em Sociologia pelo IESP-UERJ. Email: piaia.victor@gmail.com
**Doutorando em Sociologia pelo IESP-UERJ. Email: raulnunescis@gmail.com

[1] O período trabalho nesse texto é entre 2010 e 2018, por esse motivo a entrevista concedida ao Programa do Jô, em 2007, não foi considerada na análise. Essa entrevista ocorre após crítica do apresentador ao deputado em programa anterior e difere da abordagem dos outros programas, com Jô Soares contrapondo os argumentos de Bolsonaro. Não foram encontradas participações do candidato na Rede Record.
[2] https://especiais.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/pesquisas-eleitorais/todos/todas-as-pesquisas-eleitorais/#comparador
[3] https://www.gazetadopovo.com.br/blogs/conexao-brasilia/como-o-bolsonabo-tornou-bolsonaro-um-presidenciavel/
[4] Ver: https://www.youtube.com/watch?v=Da5X1Tu7kqY&feature=youtu.be&t=107 e https://emais.estadao.com.br/noticias/gente,a-gente-infelizmente-contribuiu-diz-monica-iozzi-sobre-popularidade-de-bolsonaro,70002254686

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