Quem tem medo de boatos?

Victor Piaia¹

Campanha negativa não é nenhuma novidade na história das eleições. O debate explícito e os ataques entre candidatos e partidos costumam povoar o período eleitoral, variando em intensidade e agressividade de acordo com o contexto. O limite das acusações normalmente é dado em um diálogo indireto com o eleitorado, pelo monitoramento constante da aprovação dos candidatos a cada investida mais dura.

O recente debate sobre fake news e o crescimento das redes sociais trouxeram foco para outra camada de comunicação política: de forma não-oficial e por mediadores dispersos, as redes sociais têm sido inundadas de conteúdos políticos não verificados – em grande parte falsos – em ataques baixos e explícitos a pré-candidatos e figuras públicas. Sem a vinculação direta às máquinas de campanha e com difícil acesso à autoria das mensagens, os limites dos ataques se tornam menos controláveis, gerando conteúdos que, no mínimo, desafiam o debate democrático de ideias.

Esse fenômeno não é novo, mas vem assumindo novas caras e passando por diferentes temas a cada pleito eleitoral. Sua distinção com a campanha negativa oficial é sutil, mas muito relevante para o melhor entendimento de sua dinâmica, pois reside precisamente na forma como é disseminado, com grande peso das interações pessoais e a difusão boca-a-boca. Isso não significa negar a intencionalidade de quem cria um boato, mas perceber que seu sucesso depende do repasse em círculos e contextos que ultrapassam o alcance imediato da fonte irradiadora.

Ou seja, o tipo de boato a que me refiro nesse texto não é necessariamente falso e pode ser criado pela campanha oficial, por algum simpatizante aleatório ou espontaneamente – sem intenção de interferir no debate eleitoral. Sem tirar os olhos da campanha oficial, é preciso que atentemos, também, para os rumores que se disseminam na vida cotidiana e que eventualmente são capazes de chegar ao debate público, gerando efeitos positivos ou negativos para os candidatos.

Em 2002, por exemplo, o início da campanha eleitoral foi marcado por fortes boatos sobre a desistência das candidaturas de Anthony Garotinho (PSB) e José Serra (PSDB). No caso de Serra, há um interessante desdobramento que ilustra a complexidade do fenômeno. O boato foi rechaçado com indignação pelo candidato tucano, que atribuiu sua disseminação ao Partido dos Trabalhadores, como tentativa de enfraquecimento de sua imagem. Lula (PT), por sua vez, se preocupou em desassociar o boato de uma recente queda da bolsa de valores, sugerindo que o rumor serviria, na verdade, como uma forma de terrorismo do mercado em prol da candidatura de Serra.

Já em 2006, iniciam-se as primeiras interseções entre os boatos online e offline. Dois episódios ilustram bem essa ainda tímida interação. O primeiro foi a denúncia da campanha petista de uma suposta estratégia empregada pelo PSDB com a criação de uma seção intitulada “Pau no Lula”, em seu site oficial. Argumentava o então presidente do PT que se tratava de uma compilação de notícias contrárias ao partido, postadas no site e retiradas logo em seguida, com o objetivo de disseminar essas informações sem que fosse possível identificar a fonte. Já o segundo foi a disseminação dos boatos sobre o fim do bolsa família em caso de vitória do candidato tucano, Geraldo Alckmin, por meios majoritariamente “offline”, em panfletos, boca-a-boca etc.

Em 2010, o destaque vai para conjugação de campanha negativa e disseminação de boatos contra Marina Silva (PSB) e para o choque sofrido pela campanha de Dilma Rousseff (PT) com a difusão de boatos sobre sua posição sobre o aborto. Ambas as candidatas expressam publicamente a preocupação e a tentativa de diminuir os efeitos negativos da rede de boatos. A campanha de Dilma enfrentou grande dificuldade de desmentir notícias falsas divulgadas sobretudo em igrejas evangélicas, como a que afirma que a candidata teria dito “nem Jesus me tira essa vitória”.

Em 2014, temos a introdução de dois elementos que devem aparecer muito fortes no pleito deste ano: os robôs e o Whatsapp. O PSDB sendo acusado de utilizar bots para impulsionar pesquisas favoráveis ao candidato Aécio Neves; e o PT de fortalecer uma rede de blogs que disseminaria conteúdos contrários ao candidato do PSDB.

Atualmente vivemos imersos em redes que circulam uma quantidade imensa de conteúdos falsos e boatos. O Whatsapp tem se mostrado central para a dinâmica de disseminação de rumores. Isso porque, apoiado na estratégia de repasse horizontal em meios familiares, aposta no contágio motivado pela exclusividade e sigilo do conteúdo, de modo a atacar a credibilidade da mídia tradicional.

A impossibilidade de acessarmos as interações no Whatsapp de terceiros torna muito difícil um mapeamento seguro das dinâmicas e dos conteúdos políticos que circulam nessa rede social. No mesmo sentido, mensurar o quanto esses boatos pesam na escolha do eleitor é tarefa das mais complicadas.

Até agora, na análise das eleições brasileiras, os estudos sobre o peso dos boatos focaram nos que lograram ampla disseminação, impondo sua emergência no debate público oficial, principalmente a partir da reação dos candidatos afetados negativamente. Foi assim com a reação do PSDB sobre os boatos do fim do bolsa família, em 2002, e com o PT, em 2010, com os rumores religiosos e morais contra a candidata Dilma Rousseff, por exemplo. É certo que acontecerão casos semelhantes no pleito de 2018; no entanto, acredito que a principal novidade estará nos efeitos sobre a massa de boatos dispersos que não necessariamente chegam ao debate oficial.

Ainda não sabemos bem qual será o efeito deles, mas duas grandes possibilidades aparecem como hipóteses para a investigação: i) que a massa de rumores pode funcionar como uma predisposição à visão negativa ou positiva sobre determinado candidato, mesmo que o eleitor saiba que o conteúdo de um boato específico é falso. Ou seja, mesmo verificado como falso, o eleitor tenda a comprar o viés do boato pela exposição contínua a diversos outros boatos semelhantes; ii) que a massa de boatos acabe exaurindo a paciência dos eleitores, fazendo com que a disseminação de rumores ganhe o efeito inverso: a diminuição da credibilidade dos conteúdos circulados no Whatsapp e a retomada da centralidade da grande mídia e das campanhas oficiais como fonte de informação segura.

Diante do cenário ainda incerto, o Iesp nas Eleições dedicará esforços para mapear essas – e novas! – dinâmicas e seus efeitos no debate eleitoral de 2018.

[1] Doutorando em Sociologia pelo IESP-UERJ. Email: piaia.victor@gmail.com

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *