Um balanço do horário eleitoral no primeiro turno das eleições presidenciais

Natalia Maciel Block*

Encerrado o primeiro turno das eleições presidenciais é chegado o momento de fazer um balanço da campanha. Este ano, além dos desafios impostos pelo cenário político e econômico, os candidatos tiveram que adaptar suas campanhas às novas regras eleitorais, que, dentre outros aspectos, reduziram o tempo de campanha em rádio e televisão, puseram fim às doações empresariais e estipularam teto de gastos. Neste artigo faço algumas considerações sobre o Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) na televisão dos candidatos à Presidência da República.

A grande quantidade de candidaturas (13 ao total) e a redução do tempo de tv fez com que parte dos presidenciáveis tivessem apenas alguns segundos para se apresentar no HGPE. Foi o caso de Vera Lúcia (PSTU, 7s), Guilherme Boulos (PSOL, 13s), José Maria Eymael (DC, 8s), Cabo Daciolo (Patriota, 8s), João Goulart Filho (PPL, 7s), João Amoedo (Novo, 7s), Marina Silva (Rede, 21s), Ciro Gomes (PDT, 38s), Álvaro Dias (Podemos, 40s) e do primeiro colocado na votação do último domingo, Jair Bolsonaro (PSL, 8s). Com orçamento e tempo limitados, o investimento no HGPE não compensava, fazendo com que alguns candidatos repetissem o mesmo programa (quase que) diariamente. A principal estratégia foi usar este espaço para redirecionar o eleitor para as redes sociais.

Em contrapartida, o maior tempo de tv não pareceu ter sido uma vantagem para Geraldo Alckmin (PSDB, 5min32s) e Henrique Meirelles (MDB, 1min55seg), tendo em vista o baixo desempenho que tiveram nas urnas. As duas campanhas investiram no modo tradicional de fazer campanha em televisão (jingles, vídeos de campanha de rua, etc) e praticamente nenhum destaque foi dado às plataformas digitais.

Vale pontuar que ao longo do primeiro turno as campanhas evitaram apresentar líderes ou membros importantes dos partidos para endossar candidaturas (exceto, obviamente, o PT). Essa prática foi utilizada em eleições anteriores, em que governadores, ministros, autoridades ou outros membros relevantes da sigla ou com algum grau de aprovação davam seu apoio ao presidenciável em seu programa. É possível que esta prática seja mais utilizada no segundo turno, porém ficou clara a tentativa dos candidatos de se distanciarem de políticos tradicionais e de suas siglas, haja vista a descrença do eleitorado no sistema e nos próprios políticos.

Com certeza, o tempo limitado deve ter pesado na decisão de focar os programas apenas nos candidatos, mas este não era o caso de Alckmin, Meirelles e Fernando Haddad (PT, 2min23s). O petista utilizou o máximo que pôde a imagem do ex-presidente Lula a fim de garantir a transferência de votos. Contudo, apesar de manter o discurso contra o golpe, o presidenciável não utilizou a imagem ou citou o nome da ex-presidente Dilma Rousseff. A tentativa de se desvincular da imagem do partido foi mais clara nos programas de Meirelles. A sigla MDB não apareceu em nenhum programa do candidato, apenas o seu número de urna. Além disso, apesar de ser o candidato da situação, Meirelles praticamente não explorou a sua participação no governo do seu próprio partido.

Em um contexto pós-impeachment, as candidatas a vice-presidente ganharam destaque. Ana Amélia (PP), vice na chapa de Alckmin, ganhou destaque nos programas do peessedebista, enquanto Manuela D’Ávila (PC do B) aparecia com frequência ao lado de Haddad nos programas do PT. Marina Silva também dedicou um programa para apresentar seu vice Eduardo Jorge (PV). Germano Rigotto, vice da chapa peemedebista, apareceu em alguns poucos segundos no programa de Henrique Meirelles.

A estratégia de dar maior destaque às candidatas a vice se deve também ao destaque das mulheres nesta eleição. Em um de seus programas, Haddad e Manuela visitam mulheres que trabalharam na obra de suas próprias casas, recebidas através do Programa Minha Casa Minha Vida. Ao mesmo tempo em que dá destaque à força das mulheres como trabalhadoras e chefes de família, o programa aborda uma política implementada nos governos do PT. Em um dos programas de Alckmin, uma mulher grávida questiona o eleitor qual futuro ele quer para as próximas gerações. A mensagem é destinada primordialmente às mulheres, apelando para a sensibilidade e anseios das mães. Marina Silva em vários programas destacou sua trajetória de vida a fim de dar ênfase à sua imagem de mulher de origem popular.

Por fim, é importante destacar o uso das pesquisas de intenção de voto na última semana da campanha. Geraldo Alckmin fez apelo ao voto útil: voltando seu discurso ao eleitorado anti-PT, tentou mostrar com base nas pesquisas que ele ganharia de Fernando Haddad com vantagem no segundo turno, ao mesmo tempo em que também seria capaz de derrotar Bolsonaro. Alckmin tentou se colocar como o candidato do centro, aberto ao diálogo e à moderação, em contraposição ao que chamou de extremismos de esquerda e de direita que representariam Haddad e Bolsonaro. Ciro Gomes também utilizou pesquisas para mostrar que tinha maior capacidade para vencer Bolsonaro e Haddad no segundo turno. No entanto, pede para que no primeiro turno eleitores decidam seus votos baseados em seu real desejo, e não motivados pelo medo de um ou outro candidato.

O HGPE do segundo turno começa dia 12 de outubro. Jair Bolsonaro e Fernando Haddad dividirão o tempo igualmente. Com o resultado do primeiro turno em mãos, a redefinição de apoios e a necessidade de conquistar o eleitorado de centro, acredito que as duas candidaturas irão investir em campanhas completamente novas a partir de agora.

*Pós-Doutora em Ciência Política pelo IESP-UERJ. Pesquisadora associada do Doxa-IESP/UERJ

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