Um breve balanço dos 10 primeiros dias oficiais de campanha ao governo do estado do Rio de Janeiro

Carolina de Paula¹

Desde a eleição de 2006, com a vitória de Sérgio Cabral, o estado do Rio de Janeiro tem sido governado pelo (P)MDB. Esse ano, os eleitores fluminenses não poderão escolher nenhum candidato deste grupo político para suceder o atual mandatário, Pezão, por um motivo bem conhecido: as principais lideranças do partido estão atrás das grades. Contudo, a influência do partido no pleito está muito longe de ter acabado. Basta lembrarmos que o MDB domina o maior número de prefeituras do estado, e sabemos que prefeitos e secretários municipais são valiosos cabos eleitorais.

Nesse cenário, quem o eleitor fluminense poderá escolher nas urnas dia 07 de outubro? Foram registradas doze chapas para o Executivo estadual, cito os candidatos e sua coligação (quando houver): André Monteiro (PRTB); Anthony Garotinho (PRP coligação PRP / PRB / PTC / PATRI / PMB); Dayse Oliveira (PSTU); Eduardo Paes (DEM coligação DEM / PP / MDB / PTB / SOLIDARIEDADE / PSDB / PPS / PV / DC / PHS / AVANTE / PMN); Índio da Costa (PSD); Luiz Eugênio (PCO); Marcelo Trindade (NOVO); Márcia Tiburi (PT coligação PCdoB); Pedro Fernandes (PDT coligação PSB); Romário Faria (PODE coligação PR / REDE / PPL); Tarcísio Motta (PSOL coligação PCB); Wilson Ex Juiz Federal (PSC coligação PROS). É evidente que a coligação em torno do ex-prefeito da capital do estado, Eduardo Paes, ex-MDB e recém filiado ao DEM, é a mais poderosa em força partidária nos municípios (pelo controle do maior número de prefeituras), além de dispor do maior tempo de propaganda eleitoral no rádio e televisão, como veremos adiante.

Aqui no IESP nas Eleições já destacamos uma série de novidades promovidas pelo TSE ao eleitor em 2018, por exemplo, a brutal redução pela metade dos dias da campanha (teremos esse ano somente 45 dias). Podemos supor que uma campanha curta não impediria o rápido envolvimento e motivação do eleitorado, dado o start oficial da campanha em 16/08. Não é isso, porém, o que sugerem os dados da última pesquisa de intenção de votos para o governo do estado do RJ, divulgada pelo IBOPE no dia 20/08. Impressiona, e muito, o número de eleitores que pretendem votar em branco/nulo (35%) ou ainda está indeciso (11%). Essa parece ser uma das mais graves consequências imposta pelo TSE ao postergar tanto a data inicial da campanha. Outras regras restringindo a exibição das campanhas nas ruas também contribuem para o encolhimento da política e a sensação de que a campanha sequer começou (além, é claro, da hecatombe provocada pela Lava Jato no país).

Essa situação não é peculiar ao estado do Rio de Janeiro. Em outros estados, inclusive para o pleito presidencial, há um percentual elevado de brancos/nulos e eleitores indecisos. Afora isso, o horário eleitoral gratuito só começa dia 31/08. Com todos esses pontos em mente, qual o balanço dos 10 primeiros dias oficiais da campanha para o governo do estado do RJ? Quem está na frente? Qual o cenário a poucos dias do início do horário eleitoral nessa sexta-feira? Comentarei brevemente, e em paralelo, dois conjuntos de dados. O primeiro envolve a pesquisa divulgada pelo IBOPE no dia 20/08 e o segundo traz um levantamento que realizei com exclusividade para o Iesp nas Eleições na rede social Facebook, através da ferramenta de monitoramento digital fanpagekarma, mostro indicadores sobre as fanpages dos doze candidatos, entre 16/08 e 25/08².

O cenário estimulado pelo IBOPE aos 1.204 entrevistados, entre os dias 17 e 20/082, revela que temos até o momento uma situação de empate entre três candidatos: o atual senador Romário Faria (PODE) com 14%, o ex-prefeito da capital Eduardo Paes (DEM) e o ex-governador do estado Anthony Garotinho (PRP), ambos com 12%. Um segundo grupo, também tecnicamente empatado, é formado por Tarcísio Motta (PSOL) com 5%, Índio da Costa (PSD) com 3%, Márcia Tiburi (PT) e Pedro Fernandes (PDT), ambos com (2%). Exceto Romário Faria, que possui experiência somente em cargos Legislativos, o primeiro grupo é formado por políticos que já disputaram e venceram eleições para cargos Executivos. O segundo grupo é composto por políticos com experiências mais circunscritas ao Legislativo, o candidato do PSOL é vereador em primeiro mandato na cidade do Rio de Janeiro; Índio da Costa e Pedro Fernandes, respectivamente eleitos deputado federal e deputado estadual pelo RJ, com algumas passagens por secretarias de estado. Márcia Tiburi (PT) é estreante na política.

Além do diferencial da experiência pretérita, notamos que os partidos dos candidatos líderes se posicionam essencialmente à direita no espectro ideológico. A esquerda está muito atrás, e segmentada em nomes que até agora pouco animaram o eleitorado fluminense. Contudo, nem tudo são flores para o primeiro grupo. Esses registraram os maiores percentuais de rejeição na pesquisa do IBOPE (aqueles que afirmam não votar de jeito nenhum no candidato): Anthony Garotinho atingiu impressionantes 55% e Eduardo Paes apareceu com significativos 38%. Romário Faria é o candidato em situação mais confortável, lidera a corrida, e tem administráveis 23% de rejeição.

O que dizem os dados sobre a campanha dos candidatos no Facebook? Onze candidatos utilizam essa rede social para fazer campanha, o único candidato que não possui fanpage é Luiz Eugênio, do PCO. Em dez dias de campanha, os candidatos fizeram ao todo 547 postagens. Vale destacar a diferença no ritmo. Os candidatos da esquerda lideram em número de postagens: Tarcísio Motta do PSOL fez 106 posts e a novata Márcia Tiburi, do PT, postou 93 vezes. Do conjunto que lidera a pesquisa do IBOPE, Garotinho é quem mais posta, foram 82 vezes, Romário lançou mão de 42 posts e Eduardo Paes divulgou 34. O gráfico abaixo, sobre o volume de “engajamento” de todas as postagens dos candidatos, agregou as reações dos usuários dessa rede social (likes, uaus, amei, raiva, risos, tristeza, comentários, compartilhamentos), e pode ser traduzido como a mais importante medida da movimentação online, vejamos:

Gráfico de engajamento (soma de todas as reações) das postagens realizadas pelos candidatos, de 16 a 25/08 no Facebook

Fonte: elaboração da autora

Garotinho é disparado quem mais faz “barulho” no Facebook, seguido pelo candidato do PSOL, Tarcísio Motta, enquanto a terceira posição é ocupada pelo estreante Marcelo Trindade, cujo partido NOVO tem ocupado fortemente as redes sociais nessa campanha – o candidato do NOVO à presidência, João Amoedo, faz uma campanha com alguns indicadores bastante próximos dos líderes da disputa ao Planalto, Lula e Jair Bolsonaro. Outro destaque vai para o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), que apesar de contar com uma expressiva fanpage³ em número de seguidores, espólio da sua recente gestão na capital carioca, tem um engajamento modesto, similar ao nanico André Monteiro, do PRTB. Talvez a estratégia da campanha de Paes esteja voltada para outros meios, quem sabe os mais tradicionais. Conforme ressaltei acima, Paes costurou a maior coligação partidária e terá uma ampla base de apoio de prefeitos, vereadores e secretários municipais.

Esse ano o TSE liberou o polêmico impulsionamento pago de postagens online, e alguns candidatos estão apostando boa parte de suas fichas nessa estratégia, de modo particular aqueles com pouco tempo de televisão e dificuldade de penetração em alguns segmentos do eleitorado. O que a pesquisa do IBOPE nos sugere é que há segmentos que podem ser explorados pelas campanhas no Rio Janeiro. Analisando mais detidamente o perfil dos eleitores indecisos podemos dizer que esse grupo é composto majoritariamente por: mulheres (13%), que estudaram até a quarta série do fundamental (17%), com renda até dois salários mínimos (24%) e residentes no interior do estado (16%). Há um simplismo na exposição desses dados e cada campanha precisará lê-los com cautela para definir a estratégia mais acertada.

A partir de sexta-feira (dia 31) o eleitor fluminense terá à sua disposição a aparição de candidatos no horário eleitoral gratuito no rádio e televisão – às 7h e às 12h, nas emissoras de rádio, e às 13h e às 20h30, na TV – sempre às segundas, quartas e sextas-feiras. O ex-prefeito Eduardo Paes leva vantagem, terá 3 minutos e 43 segundos em rede, além de 5 minutos e 48 segundos em inserções diárias4. Já os outros dois líderes na corrida eleitoral terão um desafio maior frente ao oponente do DEM: Romário conseguiu 44 segundos em rede e 1 minuto e 9 segundos em inserções, e Garotinho contará com singelos 32 segundos em rede e 50 segundos em inserções. A novata do PT, Márcia Tiburi, é a candidata com o segundo maior tempo de exposição, terá 1 minuto e 22 segundos em rede e 2 minutos e 9 segundos em inserções. O IESP nas Eleições seguirá atento ao uso que os candidatos farão desse espaço de campanha, não deixem de acompanhar nossa cobertura!

[1] Dra. em Ciência Política, coordenadora do IESP nas Eleições e sócia diretora da Vértice Inteligência em Mídias Sociais.
[2] Registrada no Tribunal Regional Eleitoral sob o protocolo Nº RJ‐03249/2018 e no Tribunal Superior Eleitoral sob protocolo Nº BR‐00596/2018. A margem de erro máxima estimada é de 3 (três) pontos percentuais para mais ou para menos sobre os resultados encontrados no total da amostra.
[3] Os números de fãs (coleta em 25/08): Romário Faria (2.676.135), Anthony Garotinho (759.703), Eduardo Paes (141.571), Tarcísio Motta (114.633), Márcia Tiburi (96.692), Índio da Costa (44.828), Wilson Ex-Juiz Federal (22.233), Pedro Fernandes (18.149), André Monteiro (16.650), Marcelo Trindade (10.579), Dayse Oliveira (2.157).
[4] As inserções diárias são os chamados spots, aquelas propagandas que entram “de surpresa” ao longo da programação.

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